“True Politics” | Uma análise política

True Detective é uma série imperdível para a TV, veiculada em 2014 pela HBO. Sua primeira temporada estrelou atores como Matthew McConaughey (uma atuação espetacular) e Woody Harrelson. Ao longo dos oito episódios, são utilizadas múltiplas linhas do tempo, perfazendo 17 anos, para contar a “caça” de dois corajosos detetives a um assassino em série no estado da Louisiana.

O personagem, mais emblemático é, sem dúvida, Ruster Cohle (Matthew McConaughey). Um detetive-filósofo que sofreu a terrível dor de perder uma filha pequena. É extremamente perspicaz, inteligente e obstinado pelo trabalho mas que, por sua dor incurável, traz uma visão pessimista sobre a humanidade (em um episódio define essa condição de pessimista como sendo “um cara ruim em festas”). Seu niilismo se mostra com clareza quando afirma que “a consciência humana é um erro da evolução”. Segundo ele, “todos pensamos que somos Deus, mas somos apenas seres que arrastam essa ilusão em meio a uma programação genética que nos obriga a sobreviver”.

“Há uma luta entre a luz e as trevas”, diz Cohle na última cena do último episódio da primeira temporada. Similarmente, Dostoiévski escreveu nos “Irmãos Karamazov”: “Há uma luta entre Deus e o Diabo e o palco é o coração humano”. Segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé, em artigo sobre essa série, “um diálogo entre o niilismo nietzschiano e o determinismo darwinista de Richard Dawkins não seria muito diferente”.

Os episódios mostram a vida cotidiana e a natureza humana de diversos personagens, cercados por virtudes como: coragem, generosidade, sinceridade, mas cercados, também, por muitos defeitos como: hipocrisia, incoerência, cinismo, mentira e traição. Um das muitas reflexões que podemos tirar dessa extraordinária série é que, em muitas ocasiões da vida, justamente o desencanto com a natureza humana e o sofrimento psicológico que ela traz no dia-a-dia, que possibilita desenvolvermos nossas virtudes. Como afirma Pondé: “a virtude é silenciosa e cresce sempre num terreno que lhe é hostil”.

O mundo real da política não é diferente.

O terreno hostil será diretamente proporcional a falta de confiança nas lideranças, em particular, na liderança maior do país. Vivemos atualmente em um ambiente político e econômico depauperado, capaz de reproduzir em milhões de cidadãos o espírito pessimista e cético do detetive Cohles. Como se estivéssemos destinados a viver, inexoravelmente, na mediocridade intelectual do debate público, na irracionalidade coletiva e no vale-tudo da vida pública e privada.

Não acredito nisso.

A onda de protestos nas ruas físicas e virtuais contra esse espírito é uma prova de que a “luz vencerá as trevas”. Sou um otimista inveterado. Acordo, diariamente, com o objetivo e energia para ajudar a construir uma sociedade melhor e de sempre buscar o lado bom da natureza humana. Minha natureza é a antítese da natureza do detetive Cohle. Vamos superar esse “terreno hostil” dentro das regras do Estado Democrático de Direito. A virtude prevalecerá. A True Politics vencerá!

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