Tristeza não tem fim, felicidade sim

por Sergio Vellozo Lucas

A tristeza

Todo mundo passa por uma decepção ou uma perda na vida que causa um impacto grande no cotidiano e altera sua maneira de ver o mundo.

As pessoas vão sentir de acordo com sua escala de valores, cada um sente mais aonde lhe aperta o calo, pode ser qualquer coisa, uma traição no relacionamento, a morte de alguém muito querido, a perda de um emprego ou a reprovação em um concurso muito desejado.

Quando um acontecimento desses ocorre o sujeito fica triste, porque é natural que se fique triste, a tristeza faz parte da vida de todo mundo.

A partir daí ele vai processando aquela experiência em sua mente e acaba absorvendo a perda e incorporando novos elementos em sua personalidade.

É um processo doloroso que muitas vezes pode ser confundido com depressão e muitas vezes pode mesmo evoluir para uma depressão.

Uma experiência dolorosa pode causar inúmeros efeitos, mas basicamente segue dois caminhos na mente do indivíduo.

É como a digestão de uma comida “pesada”, uma feijoada por exemplo.

Se você faz uma boa digestão, em duas horas aquela comida já não é mais sentida no seu estômago e depois se transforma em energia e você nem lembra que comeu algo pesado.

Mas se você não digere bem, em duas horas você está indisposto, suando frio, com a barriga inchada e arrotando aquela feijoada.

Assim é a perda ou a decepção. Se você “digere” bem na sua mente, depois de algum tempo ela se transforma em sabedoria.

Uma perda vira sabedoria quando depois de um período de sofrimento você fica mais preparado para enfrentar outras situações adversas que a vida certamente vai continuar trazendo. Com o tempo você não sente mais dor. Se a perda foi uma morte você passa a lembrar das boas coisas de quem se foi, se foi uma traição você se sente aliviado por ter se livrado de uma pessoa perversa.

As lembranças vão ficando distantes, você fica mais forte e vida segue o seu curso.

Mas se você “digere” mal a perda sofrida, o período de sofrimento não termina e a perda se torna um trauma.

O trauma não vai deixar o sofrimento ir embora, vai gerar um medo permanente de enfrentar outras situações adversas, vai piorar o conceito que você tem de si mesmo e dificultar a execução de tarefas que antes do trauma eram facilmente cumpridas.

E tal e qual acontece com uma feijoada mal digerida, você vai ficar “arrotando” a experiência traumática. Vai lembrar dela de forma desagradável nos momentos que menos espera e vai ter a impressão de que aquela sensação não vai embora nunca mais.

E aí você já esta deprimido, ou ansioso, ou ambos.

A sensação de tristeza se projeta indefinidamente para o futuro e causa a impressão que não vai acabar. Uma emoção traduzida lindamente na canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes que diz: “Tristeza não tem fim, felicidade sim”.

Mas felizmente a tristeza tem fim, ou a felicidade nem existiria.
Existem outros tipos de depressão que independem das experiências vividas, são as depressões endógenas, que nos casos mais graves deixa a pessoa completamente indiferente a qualquer acontecimento da vida, seja ele bom ou ruim. Mas esse é um outro assunto.

As perdas e decepções têm que obrigatoriamente trazer um aprendizado para quem as sofre, do contrário evoluem para uma depressão. A maioria de nós encontra mecanismos próprios para absorver a dor e transforma-la em experiência, mas quase todos têm ajuda nesse processo.

Pais, irmãos e amigos cumprem a função de ajudar nessa travessia, em alguns casos um terapeuta.

Quem não passa por dificuldades não cresce, vale a máxima de Nietzsche:

_ Aquilo que não me mata, só me deixa mais forte.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

This Post Has One Comment

  1. Rose Tristão

    Texto maravilhoso!! Talvez o melhor que eu tenha lido sobre o tema!! Obrigada!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>