Sexo monogâmico: modo de usar

por Sergio Vellozo Lucas

A espécie humana é a única entre os mamíferos a adotar a monogamia.

Verdade que ainda existem polígamos entre nós e parte significativa dos monógamos trai, mesmo assim somos majoritariamente monogâmicos.

O que leva os mamíferos à poligamia é o desejo sexual contínuo enquanto se encontram em fase reprodutiva. Esse desejo é a expressão física da necessidade natural de transmitirmos nossos genes para a próxima geração.

Nós, humanos, também temos um desejo sexual contínuo, entretanto as fêmeas da nossa espécie desenvolveram o desejo sexual mesmo fora da época de reprodução, o que permitiu relações monogâmicas satisfatórias para grande parte dos machos da espécie.

Uma notável adaptação evolutiva.

Apesar de bem estabelecidas, as relações com um único parceiro sofrem uma ameaça constante exercida pela atração que a curiosidade pelo diferente desperta em nossa natureza. É por isso que homens (e mulheres) traem parceiros lindíssimas(os) ou poderosíssimos(as) (até a Gisele Bündchen já foi traída).

A biologia evolutiva também explica essa atração pela diversidade no despertar do desejo sexual. Ao contrário do que imaginavam os nazistas, defensores da raça pura, a ciência já determinou que a espécie se aprimora sempre que a base genética da prole é ampliada. Por isso os vira-latas têm mais saúde do que os cães com pedigree.

O desejo sexual por pessoas diferentes nada mais é do que aquele homenzinho de Neandertal que mora no nosso inconsciente querendo aumentar a possibilidade de sucesso de seus herdeiros.

Então como competir com isso?

A resposta é: intimidade.

Variedade X Intimidade.

O tempo permite o desenvolvimento de um conhecimento e intimidade que são insubstituíveis na hora do sexo.

Um parceiro sensível sabe aonde tocar, qual pressão exercer nesse ou naquele ponto, qual a velocidade ideal para alcançar o prazer.

Mais, um casal íntimo pode dizer exatamente aquilo que deseja para o outro no exato instante em que o desejo surge, sem ter medo de ser mal interpretado.

Qualquer pessoa pode fazer o mesmo e dizer o que gosta na hora do sexo, mas só a confiança na intimidade permite a segurança de se sentir compreendido. Um parceiro íntimo não vai achar que você é esquisito porque gosta de alguns truques especiais.

Parceiros eventuais podem fazer sexo de boa qualidade e com muita liberdade de ação na hora H, mas nunca vão alcançar a segurança de movimentos de quem tem a certeza das preferências do seu parceiro e sabe escutar e interpretar os seus desejos.

As pessoas que se julgam muito boas de sexo e mantêm uma variedade muito grande de parceiros quase sempre impõe ao outro as suas preferências e mantém o sexo num nível de intimidade muito raso. Mesmo que façam múltiplas coisas na cama, mesmo que ouçam gritos frenéticos de prazer.

Parceiro bom de cama não é aquele exibicionista performático que aprendeu meia dúzia de truques do Kama Sutra, bom de cama é quem gosta de sexo, sabe escutar e conhece bem o corpo e a cabeça do outro.

A longevidade da parceria sexual também permite a evolução das experiências sensoriais. Apesar de habitualmente nos determos somente na visão e no tato, o sexo pode ser explorado pelos cinco sentidos. A audição, o olfato e o paladar só costumam entrar em cena após uma intimidade segura ser estabelecida. Todos os sentidos têm o poder de renovar completamente a paisagem sexual.

A intimidade também permite o prolongamento do prazer, sim isso também pode ser feito com múltiplos parceiros, mas nunca com a mesma segurança. A hora certa de diminuir o ritmo para prolongar o orgasmo e aumentar sua intensidade é reconhecido por todos que gostam de sexo, mas a sincronia que permite fazer dessa manobra um trabalho de equipe só é alcançado com muita intimidade.

Os anos passam e a maioria de nós continua sendo assombrado por aquilo que não tem. Nosso instinto matador mamífero nunca vai desparecer por completo e essa insegurança sempre vai fazer parte de qualquer relacionamento saudável.

A resposta está no aprimoramento da intimidade.

O sexo é um joguinho de milhares de megabytes que muita gente fica querendo trocar logo depois de ter explorado apenas alguns quilobytes.

Antes de trocar o jogo é melhor aprender a passar de fase.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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