Sete pontos contra a demonização da política

Com a desistência de Joaquim Barbosa o processo de definição de candidaturas para as eleições presidenciais avança muito. O texto do Augusto de Franco que publicamos abaixo ajuda muito a reflexão para quem se identifica com o campo democrático e reformista.

1 – Na democracia não é possível recomeçar o país do zero. Como se um Estado-nação fosse um sistema operacional da Microsoft que dá pau e então você reinicializa tudo. Esta é uma perspectiva restauracionista. Jogar tudo no chão, apostar na política de terra arrasada, não é política, mas antipolítica. Os jacobinos fizeram isso e vimos qual foi o resultado: o Termidor… e um Napoleão esperando na próxima esquina.

 

2 – A democracia, pelo contrário, só pode se exercer por meio do jogo político. Não há saída sem política. Não há solução para a política por meio de uma intervenção por cima da política – a partir de um estamento judicial, policial ou militar do Estado ou elegendo um candidato antipolítico, supostamente imune às fraquezas humanas (Mussolini e Hitler também se diziam acima da politicagem costumeira). As saídas por cima, prussianas ou assemelhadas, não são democráticas e suas consequências sempre são restrições à liberdade. Mesmo as supostas saídas urdidas a partir de órgãos de controle do Estado, como a operação Mãos Limpas na Itália dos anos 90, costumam acabar mal (e um Berlusconi estará esperando na próxima esquina).

 

3 – Democracia é política. É a política possível com os agentes políticos disponíveis, com todas as suas imperfeições. Qualquer demonização da política é um atentado à democracia. A democracia não é o regime sem corrupção e sim o regime sem um senhor. Quem quer um regime puro, reto e perfeito, deve procurar uma religião, não a política.

 

4 – Por mais que um sistema político tenha apodrecido, é com ele que devemos contar para superar suas mazelas. Os erros da democracia só podem ser corrigidos com mais democracia, não com menos. Jogar tudo no lixo, trocando a arte da política, praticada pelos imperfeitos e sujos seres humanos realmente existentes, pelas decisões voluntariosas e monocráticas de supostos guardiães da moral e dos bons costumes, imaginários seres perfeitos e limpos, leva inexoravelmente a menos democracia. Os golpes contra regimes democráticos, via-de-regra, têm como bandeira acabar com a corrupção (até a plataforma do tenente-coronel Hugo Chávez, quando deu seu primeiro golpe na Venezuela, priorizava o fim da corrupção do governo de Carlos Andrés Pérez).

 

5 – Mesmo que a maioria da população, revoltada com a corrupção endêmica na política tradicional, estivesse disposta a jogar tudo para o alto, chutar o balde e optar por uma saída antipolítica para dar um curto-circuito no sistema, apostando num autocrata como Bolsonaro, que prometa botar ordem na casa no grito ou num caçador e punidor de corruptos, como Joaquim (Collor também se apresentou como um “caçador de marajás”), mesmo assim os democratas não podem deixar de alertar para o perigo dessas “soluções” fáceis e erradas do ponto de vista da democracia.

 

6 – Para ter, no Brasil, de uma vez, níveis de corrupção aceitáveis como os da Noruega ou da Nova Zelândia, precisaríamos de estoques de capital social semelhantes aos dessas sociedades, o que só o processo democrático, na base da sociedade e no cotidiano do cidadão, pode construir. A Noruega e a Nova Zelândia não chegaram onde estão instrumentalizando politicamente o combate à corrupção (em nenhum desses países houve uma “milícia estatal” fazendo política, nem operação Mãos Limpas, nem operação Lava Jato). A Noruega e a Nova Zelândia não chegaram onde estão elegendo um Jair Bolsonaro ou um Joaquim Barbosa.

 

7 – Apenas 5 meses nos separam das eleições de 2018. Não há mais tempo hábil para urdir soluções mirabolantes, inventar candidatos perfeitos. Nenhum candidato é perfeito. E mesmo que fosse, apostar em alguém que não tem condições de quebrar a polarização entre dois candidatos do campo autocrático só para acumular forças para 2022 ou 2026, seria uma irresponsabilidade. A democracia corre serio risco no Brasil se o PT voltar ao poder (com um candidato próprio ou apoiando um estatista como Ciro Gomes) ou se, para impedir a volta do PT ao poder, entregarmos o país nas mãos de um aventureiro populista-autoritário ou de um novo caçador de corruptos.

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