Quatro formas de maturidade

por Sergio Vellozo Lucas

Amadurecer

É comum, quase um clichê, ouvirmos ou mesmo oferecermos conselhos genéricos para que os outros amadureçam.

Mas o que quer dizer amadurecer?

Não é simplesmente ficar velho, mesmo que Nelson Rodrigues tenha mandado os jovens envelhecerem usando esse sentido. Nesse caso foi somente uma licença poética do genial dramaturgo.

Para cada momento existe uma maturidade específica, mas não vou falar de maturidade política ou maturidade financeira, vou tentar definir as quatro formas de maturidade que julgo mais importantes ao longo da vida.

1 – A primeira e mais simples é a maturidade sexual. Fora algum transtorno de desenvolvimento tomamos consciência da maturidade sexual lá pelo meio da adolescência, a partir do momento que os órgãos sexuais estão prontos para reproduzir a nossa espécie. É uma delícia tomar posse dessa maturidade, tudo parece possível a partir daí e por isso frequentemente a maturidade sexual atrasa a chegada às outras modalidades de maturidade.

2 – Maturidade intelectual é a competência de elaborar raciocínios abstratos originais em diferentes contextos, o seu subproduto mais visível é a capacidade de argumentar com lógica sobre praticamente tudo. Pessoas geniais podem alcançar a maturidade intelectual antes mesmo de atingir a maturidade sexual, mas para a maioria de nós ela começa a surgir no inicio da vida adulta e pode nunca ser alcançada por pessoas incapazes de pensar por si mesmos.

3 – A maturidade social geralmente é alcançada quando nos tornamos responsáveis pela nossa própria subsistência criando uma nova unidade familiar, mas um seminarista que se gradua padre também é socialmente maduro, então nos tornamos maduros socialmente quando integramos de forma produtiva qualquer instituição que seja parte da estrutura social do universo que vivemos.

4 – Por fim temos a maturidade emocional, de longe a mais complexa das quatro.

Podemos usar aqui o conceito de inteligência emocional, que é a capacidade do indivíduo de utilizar todos os recursos intelectuais, materiais e logísticos disponíveis para alcançar seus objetivos. É identificar e defender aquilo que representa felicidade para si e para as pessoas que dependem dele.

Mas vale a pena acrescentar um pouco.

A chave da maturidade emocional é a paciência e o sentido de oportunidade. As crianças e os imaturos possuem um sentimento de urgência conectado a todos os desejos. A criança chora porque está com fome e faz manha quando é impedida de brincar da forma que deseja, elas não aceitam o depois como resposta porque ainda não compreendem o ritmo da passagem de tempo.

A mesma urgência é observada nos imaturos mais velhos, eles não conseguem esperar pelas suas oportunidades, estão sempre se adiantando, revelando suas intenções antes do tempo e reduzindo suas chances de sucesso.

Essa impaciência pode ser mantida pela ausência de dificuldades no processo de crescimento, pais superprotetores criam filhos imaturos emocionalmente.

Outras condições como a dependência química mantém o sujeito eternamente imaturo, o desejo urgente do viciado de usar a sua droga contem a mesma impaciência do bebê que chora desesperadamente para mamar. O processo que leva o dependente químico a conseguir interromper o uso da droga acontece quando o sujeito aprende a fazer escolhas que possibilitam uma satisfação maior no futuro em detrimento de um prazer imediato e fugaz. É o próprio processo de amadurecimento emocional.

É difícil amadurecer emocionalmente, o mundo está cheio de velhos imaturos. A paciência é o caminho.

A divisão criada aqui é arbitrária e caberia outras, além da possibilidade de explorar o conceito de maturidade global através da conexão de seus diversos segmentos.

A maturidade intelectual facilita o amadurecimento social, que é importante do ponto de vista emocional e tudo ficaria muito mais difícil de conquistar sem maturidade sexual.

Ha sim uma conexão entre as diferentes formas de maturidade, mas esse elo também faz parte da grande ligação invisível que relaciona cada parte do indivíduo com ele mesmo e com o restante do universo como um todo.

É papo pra mais uma dezena de posts.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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