Por que o Brasil cresce pouco? (resenha)

Por que o Brasil cresce pouco?: desigualdade, democracia e baixo crescimento no país do futuro

O debate sobre as dificuldades para o crescimento econômico do Brasil ganhou novo alento no ano de 2014. Algumas publicações se destacaram por trazer racionalidade e profundidade para questões que, evitando uma discussão séria e de qualidade, por conta de sua “Nova Matriz Econômica”, aqui já definida como “embromation economics”, o governo fazia de tudo para fugir.

Hoje quero falar de um livro magistral. De alta qualidade empírica, conceitual e teórica. Por que o Brasil cresce pouco?, de Marcos Mendes.

O argumento central do livro é que temos um nó político para a promoção do crescimento econômico: a combinação entre ambiente democrático e alta desigualdade econômica.

Antes que algum apressado do tipo “não li e não gostei” pense que o autor defende o regime autoritário ou que se mantenha a desigualdade, aconselho a ler o livro para verificar que nem uma coisa nem outra estão presentes na obra.

Com essa combinação explosiva construímos um modelo de baixo crescimento econômico com redistribuição dissipativa. Não havendo um consenso na sociedade que busque construir maior igualdade com maior crescimento e uma distribuição, digamos, eficiente, o modelo tende a se reproduzir.

O diagnóstico das características desse modelo de baixo crescimento com distribuição dissipativa deveria servir de alerta àqueles que pensam a economia apenas como um conjunto de boas intenções (que, como todos conhecemos do dito popular, o inferno está cheio) mas se descuidam das necessidades fundamentais para fazer o país crescer.

São elas, conforme citadas pelo autor, não necessariamente nessa ordem: atraso educacional; excesso de despesa pública; fragilidade das agências reguladoras; comércio internacional fechado; juros elevados; impostos altos; desequilíbrio da previdência; lentidão da Justiça; subsídio de crédito do governo a grandes empresas; informalidade dos negócios; insuficiência de infraestrutura e longas greves no setor público.

Conforme o autor destaca, essas não são as causas estruturais do baixo crescimento, apenas seus sintomas ou causas imediatas, como ele destaca “uma causa mais profunda seria, justamente, a coexistência de desigualdade e crescimento”.

Nos seis capítulos que compõem a obra o autor nos mostra evidências qualitativas e quantitativas, amparadas por excelente análise conceitual e teórica, as características políticas econômicas e sociais do Brasil na Ditadura (1964 – 1985), no capítulo 1; a evolução da desigualdade no Brasil desde 1985, no capítulo 2; mostra a desigualdade como elemento de fundo dos fatores que dificultam o nosso crescimento e como os interesses dos ricos se sobrepõem aos interesses da sociedade prejudicando o crescimento, no capítulo 3; apresenta como os interesses dos mais pobres, em conjunto com o dos mais ricos, no modelo democrático atual ajudam a construir a redistribuição dissipativa, no capítulo 4; descreve como a pressão redistributiva também ocorre da parte dos setores intermediários, ampliando, ainda mais, os efeitos negativos sobre o crescimento, no capítulo 5; e, por fim, analisa os efeitos de longo prazo do baixo crescimento com distribuição dissipativa, com duas possibilidades de resultados: um ciclo virtuoso, com queda da desigualdade e dos gastos dissipativos , e um ciclo vicioso, com a continuidade da alta desigualdade e dos gastos dissipativos.

Como destaca o autor no final da introdução “Em suma, a sociedade brasileira encontra-se frente a duas tendências alternativas […]. Ambos os caminhos estão abertos e dependem tanto da capacidade dos candidatos a estadistas que assumirão o comando político do Estado brasileiro nos próximos anos, quanto dos efeitos da economia internacional sobre o país”.

Ao meu juízo, uma certeza podemos extrair, não será a atual incumbente do Palácio do Planalto que irá nos conduzir ao ciclo virtuoso, ela e o projeto político que ela representa não tem a menor ideia de como vencer os desafios que nos se apresentam.

Eu recomendo a leitura do livro, com certeza ficamos mais qualificados para o debate público sobre o tema.

Sobre o autor:
Marcos Mendes é economista com graduação e mestrado na Universidade de Brasília e doutorado na USP. Desde 1995 é Consultor Legislativo do Senado. Anteriormente, trabalhou no Banco Central e no Tesouro Nacional. Especializado em finanças públicas, produziu diversos estudos – vários deles premiados – sobre políticas públicas, desequilíbrios orçamentários no Brasil, e problemas de gestão fiscal e suas causas políticas e econômicas. Seus trabalhos analisam questões tão diversas quanto o tipo de política fiscal que ajuda a reeleger um prefeito, os efeitos da aprovação do Código Nacional de Trânsito sobre a mortalidade em acidentes automobilísticos, as inconsistências em projetos de grandes obras públicas como o “trem-bala” ou os estádios da Copa do Mundo, os problemas nos modelos de concessão de serviços públicos e a febre de criação de municípios que assolou o Brasil em décadas passadas. Desde 2011 é um dos editores do premiado site “Brasil, economia e governo” que, em associação com o Instituto Fernand Braudel, tem por objetivo oferecer explicações didáticas sobre temas econômicos importantes para o desenvolvimento do país.

Entrevista de Marcos Mendes no programa Cidadania da TV Senado sobre o livro:

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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