Os professores estão doentes

por Sergio Vellozo Lucas

Pátria Educadora?

No ano que passou atendi mais de uma dezena de professores (as) que desejavam se afastar das salas de aula.

Todos desenvolveram diferentes formas de manifestar fobia de lidar diretamente com seus alunos. A maioria teve crises de pânico e melhorava rapidamente quando parava de trabalhar, ou pelo menos quando era transferido de função.

Todos com pelo menos 10 anos de atividade profissional e sem exceção se diziam vocacionados para o magistério no início de suas carreiras.

Todos reclamavam da remuneração, mas o motivo de se afastar era sempre outro, até porque em outras funções não melhoravam o salário. Apontam a falta de respeito dos alunos, a falta de amparo das escolas às suas decisões e a falta de apoio da sociedade como um todo à atividade docente como as principais causas do desencanto com a profissão.

Ninguém mais sabe como corrigir um aluno, colocar limites e fazer valer a meritocracia sem correr riscos por todos os lados. É mais fácil encontrar professores que temam alunos do que alunos temendo professores, invertendo a ordem natural da relação entre quem ensina e quem aprende. Professores perderam prestígio social, ninguém mais enche a boca pra dizer -“Eu sou professor”.
Cada vez menos jovens sonham com o magistério e a profissão vai ficando relegada àqueles que não têm outras opções.

É claro que ainda existem professores que amam o que fazem e conseguem sobreviver dignamente dessa atividade, mas são as exceções e estão ficando cada dia mais raros.

Foi uma longa decadência até chegarmos nesse estágio em que o saber não impõe respeito. Até há pouco tempo havia um quadro intermediário, os professores já não ganhavam tão bem, mas ainda eram muito respeitados, ainda havia orgulho nas famílias dos professores quando revelavam a profissão dos seus filhos.

Não são mudanças superficiais que reverterão esse quadro, mas pelo menos é imperativo que pare de piorar. Ser professor agora faz mal à saúde. A continuar desse jeito em breve só teremos professores tapa-buracos que jamais servirão de modelo para os jovens alunos.

Jamais ensinarão a pensar, no máximo repetirão doutrina para ser decoradas e reproduzidas, de preferência em forma de slogan.

Pátria educadora só existe no discurso da elite ignara que ora exerce o poder no Brasil.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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