Os idiotas da objetividade

por Luís Filipe Vellozo de Sá

Nelson Rodrigues

O fabuloso e genial Nelson Rodrigues cunhou essa expressão magnífica: `idiota da objetividade´.

Aplicava o conceito em várias situações da vida. Como o futebol era uma das suas grandes paixões, volta e meia ele aparecia esculhambando com os idiotas. Adoraria vê-lo em um desses programas de televisão ou rádio sobre futebol onde gastam 66% do tempo analisando se a falta foi intencional, se o jogador do time adversário dava condições ou não para o atacante, se foi ou não pênalti, entre outras idiotices objetivas.

Queria vê-lo, por exemplo, no programa Bem Amigos descascando em cima das análises do Galvão Bueno e do Arnaldo Cezar Coelho, representantes legítimos dessa classe.

Nelson não tinha a menor paciência para ouvir coisas como “na minha opinião, ele está impedido: olha lá o pé dele” ; “não parece, por causa do ombro, mas o pé mostra que está”; entre outras “objetividades” sem resolutividade.

Uma pessoa que escreve coisas como: “Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”; “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”; “Às vezes, num corner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural”; entre outras frases maravilhosas, faz muita falta na atualidade brasileira, mergulhada há mais de uma década numa espécie de epidemia da idiotice coletiva, e muitas vezes, o que é mais ridículo, com ar de erudição.

Em minha opinião, cai como uma luva nesse momento, onde o Brasil enfrenta uma das mais graves crises institucionais (política e econômica) da história republicana. Nesse contexto, os idiotas da objetividade seriam aqueles que resistem aos fatos e preferem ficar ostentando uma pretensa objetividade em torno de um mundo irreal que eles tanto acreditavam, mas que fracassou. Menos para eles, os idiotas iluminados! Na linguagem do futebol, alegam que a oposição está sempre em impedimento; que os juízes os prejudicam; blá blá blá. Debatem o periférico porque o fundamental eles não alcançam ou não suportam enfrentar. Uma dissonância cognitiva patológica.

A esses idiotas recalcitrantes não lhe restam outra opção a não ser buscar um lugar confortável para seus equívocos conceituais. Esse lugar, é o mundo da fantasia onde se preocupam apenas em confundir; fazer espuma; produzir “marolas” indutivas baseadas em falsas estatísticas; torturar os dados, sem piedade, até fazer com que confessem; arrotar infantilidades intelectuais que nada explicam e ficam somente atentos em detalhes desimportantes sobre os fatos. Caem no que eu chamaria de autoengano sem resolutividade.

Devem estar sofrendo por aí, envergonhados ou desavergonhados, pois não enganam mais ninguém no debate público e acabam saindo batendo a porta e “fazendo biquinho” quando contestados. Claro, uma vez que a falta de educação no debate é consequência direta da escassez de argumentos.

Enquanto isso o país afunda, e uma “meia dúzia de cinco ou seis” idiotas da objetividade, sem eira nem beira, permanecem velando publicamente uma presidenta que já morreu politicamente e que o cheiro está, cada dia, mais insuportável. Os idiotas da objetividade não mudarão, pois a idiotice quando está no DNA é mais forte do que a razão. Nelson tem outra frase que pode servir de consolo para essa turma: “Invejo a burrice, porque é eterna”. Viva o tricolor genial Nelson Rodrigues!!!

Luís Filipe Vellozo de Sá | Blog do Luiz Paulo

Luís Filipe Vellozo de Sá

Auditor de Controle Externo do TCEES, Mestre em Economia/UFES, graduando em Direito pela Universidade Vila Velha e membro fundador da ONG Transparência Capixaba.

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