O retrato | 3ª edição (resenha)

por Luiz Paulo Vellozo Lucas

Osvaldo Peralva

A editora Três Estrelas lançou, esse ano, a terceira edição do livro O Retrato, do jornalista Osvaldo Peralva. A primeira foi lançada em 1960 pelo jornal O Estado de S. Paulo (em forma de capítulos) e pela Editora Itatiaia; a segunda pela Editora Globo, sem grandes alterações, em 1962. Em 1992, ano de sua morte, Peralva fez nova revisão, a que agora chega ao público.

O livro tem, ao meu sentir, dois méritos principais. O primeiro é ser um relato bastante detalhado, e com base em experiência vivenciada pelo autor, tanto do PCB, quanto do movimento comunista internacional e da realidade soviética e dos países socialistas, seja pelo tempo de estudo na União Soviética, seja como quadro do Kominform (nome da Internacional Comunista nas décadas de 1950 e 1960), primeiro em Bucareste, depois em Praga. Além disso, por sua própria posição, o autor viajou a inúmeros países do chamado Bloco Soviético.

No seu relato, bastante sincero e com densa carga de emoção, podemos perceber, entre tantas coisas mais, o controle que o Partido Comunista da União Soviética (PCUS) exercia sobre os “partidos irmãos” de todo o mundo. Podemos perceber os privilégios que a Nomenklatura soviética se autoconcedia e como eles acabam se espraiando para todos os demais partidos e regimes assemelhados.

O principal, no entanto, nesse campo, é perceber a natureza totalitária do movimento comunista. Como ela anula a liberdade de expressão, de debate, e, portanto, a própria vitalidade daquele movimento que queria “construir um mundo novo”. Aquilo que Tzevetan Todorov, no seu clássico “Memórias do mal, tentação do bem” classificou como a não aceitação da autonomia individual e, apesar do discurso, a interdição da autonomia coletiva. O partido, os partidos, o governo, os governos, tinham dono: o líder de plantão, o genial guia dos povos de ocasião.

Muito importante, também, são os trechos do livro onde o autor apresenta os desdobramentos do Relatório Secreto de Kruschev ao XX Congresso do PCUS. A dificuldade, de muitos, inclusive dele, em aceitar que todos aqueles crimes denunciados haviam sido cometidos. Mais complexa é a construção da percepção de que os crimes e todo o autoritarismo e mandonismo do movimento não era – apenas – um problema do “culto à personalidade”, mas, sim, algo estrutural da própria ideologia e proposição política dela decorrente. Isso causou dor, sofrimento, lágrimas, altercações, debates intensos, mas muitos, inclusive Peralva, conseguiram se livrar do pendor totalitário.

Acho que esse livro teria especial utilidade para os brasileiros que ainda creem no ideário de justiça antigamente pregado pelo PT, para perceberem a corrupção do modelo a que estamos submetidos e no qual fomos inseridos – gostemos ou não; e verificar que o mesmo pode ser superado. Que defender a justiça e o bem-estar não é patrimônio de ninguém e, mais importante, que nada justifica que quaisquer tipos de meios sejam utilizados para alcançar alguns fins e que a falta de controle, prestação de contas e punições, corrompe o projeto e o transforma num fantasma de si mesmo.

O retrato poderia também se chamar “O aparelho”. Mostra a degradação do aparelho comunista, muitas relações podemos estabelecer com a degeneração do aparelho petista, cujo retrato estamos reconhecendo diariamente.

Eu recomendo a leitura.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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