O medo dos bárbaros: para além do choque de civilizações

resenha por Luiz Paulo Vellozo Lucas

Tzevetan Todorov

Essa semana, diante dos trágicos acontecimentos registrados em Paris, temos procurado discutir aspectos do enfrentamento do terror. Como sugestão de leitura dessa quinta-feira, me parece muito adequado esse livro – O medo dos bárbaros, do pensador búlgaro Tzevetan Todorov, radicado na França desde 1963.

Todorov é um pensador multifacetado. Suas obras, mais de vinte, discutem filosofia, história, linguística, política, sociologia e antropologia.

Esse livro levanta discussões fundamentais para o século XXI. Como evidente no subtítulo se opõe ao entendimento de Samuel Hutington do que viveríamos, desde o fim da Guerra Fria, um choque de civilizações. Talvez fosse melhor dizer que, para Todorov, essa ideia de choque de civilizações nos levará ao beco sem saída da guerra e da barbárie, da violência entremeando desespero e ressentimento.

Nos cinco capítulos que compõem a obra, ele discute temas sumamente importantes e que ressurgem em seus significados tanto para a compreensão dos atuais acontecimentos quanto para as soluções que devemos dar aos problemas que enfrentamos nesse campo.

Todorov fala de barbárie e civilização, de identidades coletivas, da guerra entre o Ocidente e o Islamismo, na necessidade de compreender os diferentes ou navegando entre arrecifes, como denomina o capítulo 4, e discute, por fim, a identidade europeia.

Entre os elementos centrais do texto que quero aqui destacar estão três ideias centrais: primeiro ele destaca que todos nós, mesmo quando vivemos na “nossa” sociedade, nunca somos completamente integrados, sempre existe um estranhamento, um senão. Não obstante, se não nos integrarmos minimamente no contrato social sob o qual vivemos estaremos condenados ao desespero e seremos tentados a recorrer à violência; em segundo lugar aponta o fato de que a dicotomia medo-ressentimento, amparada por uma visão maniqueísta da vida, serve apenas para construir uma realidade onde a ação violenta de um provoca uma resposta ainda mais impactante de outro num confronto funesto onde pouco podemos prever suas consequências a não ser uma escalada de violência que, com certeza, impactará a vida na Terra; por fim, ele afirma que para vencermos o medo e o ressentimento, para impedirmos esse “ciclo” de destruição e submissão, temos que reconhecer a pluralidade e aceitarmos uma vida em comum dos diferentes, dos plurais.

A base de discussão de toda a obra é a cultura, o seu conceito, a necessidade de percebê-la como construção, de reconhecer suas funções, de construir valores de natureza moral e política, de, na diferença, construir as bases para uma vida comum.

Esse é um grande desafio e a obra de Todorov nos ajuda a compreender isso melhor. Por isso vale muito a leitura.

Café filosófico: A democracia e a beleza – Tzvetan Todorov
Conheça um pouco mais das ideias desse pensador

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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