O mal ronda a terra: um tratado sobre as insatisfações com o presente

Resenha por Luiz Paulo Vellozo Lucas

Tony Judt

Tony Judt, falecido em 2010, foi um historiador, escritor, professor universitário e, ao meu juízo, um dos mais argutos analistas políticos do fim do século XX e início do XXI.

Já falamos aqui do seu livro Passado Imperfeito, para hoje, como estamos centrando nossa atenção na questão ambiental e do aquecimento global essa semana, me lembrei então de resenhar esse livro, que ele lançou no ano de sua morte, e aqui no Brasil foi editado em 2011, que trata de desafiantes questões para esse século XXI.

O tratado

Como Judt afirma logo no início da introdução do livro (2011, p. 15) “Há algo de profundamente errado na maneira como vivemos hoje. Ao longo de trinta anos a busca por bens materiais visando o interesse pessoal foi considerada uma virtude: na verdade, esta própria busca constitui hoje o pouco que nos resta de nosso sentimento de grupo. Sabemos o preço das coisas, mas não temos ideia de seu valor. Não fazemos mais perguntas sobre uma decisão judicial ou um ato legislativo: é bom? É justo? É adequado? É correto? Ajudará a melhorar o mundo ou a sociedade? […]”.

No seu livro, para além desse modo de vida de exacerbado consumismo que ele critica, analisa também os desafios que tem a social democracia na busca de novos padrões de desenvolvimento e de democracia. Como sempre coloca questões provocativas e difíceis.

Ao longo da introdução, dos seis capítulos e da conclusão, faz uma análise daquilo que perdemos (sem nenhum espírito retrógrado saudosista, diga-se), mas destaca, fundamentalmente, a necessidade de construirmos um novo modus vivendi na política, na economia e na sociedade.

Um obra plenamente conceitual, de um homem que, sabia que sua vida chegava ao fim (o livro foi terminado em fevereiro e ele faleceu em agosto de 2010), mas queria deixar registrado suas preocupações com a vida e com o mundo.

Os desafios que as mudanças climáticas nos colocam – aquecimento global – servem de pano de fundo intenso para pensarmos e respondermos propositivamente às questões que Judt coloca. Precisamos repensar as formas de produção, distribuição e acumulação de riqueza, precisamos repensar as formas com que nos relacionamos social e politicamente. Precisamos repensar as formas que nos relacionamos com a natureza e os bens e serviços que produzimos e ofertamos.

Por tudo isso, não posso deixar de recomendar a leitura dessa obra magistral, desse grande humanista. O mal ronda a terra. Nós podemos, como deixa clara a obra de Judt, fazer diferente e afastar da terra e de nós, portanto, ao menos os principais elementos desse mal.

Boa leitura.

 

Resenha
O mal ronda a terra: um tratado sobre as insatisfações com o presente
Tony Judt

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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