O implacável Mister Cash Flow

Uma ilusão cognitiva muito comum em economia, mesmo entre pessoas bem formadas, diz respeito aos conceitos de patrimônio e fluxo de caixa. Existe uma ideia muito popular, embora extremamente equivocada, que a riqueza líquida, o caixa, o financeiro, são menos relevantes que o patrimônio. Por muitos anos, a privatização foi satanizada com o argumento que o patrimônio público foi vendido a preço de banana. A valorização da empresa depois da privatização era apresentada como prova. Quanta bobagem!

A existência de reservas minerais a explorar é muito útil para disseminar esse equívoco que remete a ideia de riqueza entesourada, estática, que prevalecia nos tempos do mercantilismo, antes da revolução industrial. A matemática financeira e o princípio da equivalência de capitais, que permitem comparar estoques de riqueza -patrimônio imobilizado- com fluxos de caixa no tempo, são conceitos ensinados no ensino médio, mas são esquecidos convenientemente quando se trata de luta política.

As empresas privadas não quebram por serem inviáveis economicamente, menos rentáveis que a taxa de juros do mercado. Tampouco são protegidas da falência por possuírem patrimônio. As empresas quebram quando não possuem caixa no momento de pagarem obrigações financeiras com fornecedores ou credores. “Happiness is a positive cash flow”, dizia um quadro pendurado na sala do Ministro Pedro Malan.

Em tempos de ajuste fiscal em todos os níveis é preciso não se deixar enganar pelos números. Eles não mentem, mas os homens mentem muito usando números.

Vender patrimônio para cobrir déficits no fluxo de caixa em conta corrente é um erro de gestão grave.

Vender patrimônio se justifica diante de um quadro de endividamento sufocante, para pagar dívidas caras e reduzir compromissos correntes, ou para fazer um novo investimento. Equilibrar o fluxo de caixa corrente, receitas correntes menos despesas correntes, é a primeira tarefa do administrador financeiro responsável.

Em tempos de crise econômica e política aguda, a falta de dinheiro vai sendo cada vez mais uma presença constante na vida dos governos, das empresas e das pessoas. Vários estados e municípios no Brasil estão recorrendo `a securitização da dívida ativa, uma operação financeira de venda da carteira de recebíveis tributários com deságio a fim de aumentar a disponibilidade de caixa.

É um erro argumentar contra a securitização repetindo o mantra antiprivatização, que se aproveita da ilusão mercantilista que sataniza a venda de patrimônio, desdenha da avaliação de mercado dos ativos e se aproveita da superficialidade técnica que costuma prevalecer no debate político.

No entanto, é preciso estar atento para a securitização de dívida ativa antes que as medidas administrativas, jurídicas e políticas necessárias ao equilíbrio do fluxo de caixa em conta corrente sejam tomadas. Neste caso, a venda dos recebíveis tributários, quase sempre o patrimônio mais fácil de vender, vai apenas tapar rombos financeiros e esconder os culpados do desequilíbrio.

Quando comecei minha vida profissional no BNDES fui numa empresa, nossa cliente, que estava muito mal financeiramente e estava fazendo um ajuste de custos duro, com um novo diretor que justificava todos os cortes com a explicação: “É por causa do cash flow”. O empregado que me recebeu estava pálido e preocupado. Cumprimentei-o com a tradicional pergunta retórica bem brasileira:

“E aí ! Tudo bem?”

Ele respondeu:

“Até agora sim. Só espero que este tal de Mister Cash Flow não se lembre de mim.”

This Post Has One Comment

  1. Gerson

    Excelente a matéria Mister Cash Flow. O quadro na antiga sala do Malan dizia tudo.

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