O cavalo do inglês

por Sergio Vellozo Lucas

Da série piadas úteis: essa tem um viés terapêutico.

Quem me contou foi um amigo inglês. Ele contava de um jeito sério,como costumam ser os ingleses, mas a seriedade dele realçava a ironia da estória, que ficava melhor do que eu posso descrever.

Nunca consegui reproduzir a fleuma dele, portanto tentem imaginar um lorde inglês narrando essa estória de forma quase indiferente.

Começa assim:

Se uma pessoa passa por você e diz que você é um cavalo, não se preocupe. O sujeito deve ser maluco, isso não faz o menor sentido.

Se duas pessoas passam por você e dizem que você é um cavalo, não tem problema. É só uma coincidência.

Se uma terceira pessoa passa por você e diz que você é um cavalo, fique alerta. Possivelmente tem alguém influente espalhando por aí que você é uma cavalgadura.

Agora, se quatro ou mais pessoas dizem que você é um cavalo, tome logo uma providência. Vá trocar suas ferraduras e melhorar o seu galope pra pelo menos ser um cavalo que preste pra alguma coisa.

Não restam dúvidas,você é mesmo um cavalo.

No dia a dia eu apelidei algumas situações de “cavalo do inglês”.

Tem os teimosos que insistem em levar adiante projetos em que todas as evidências apontam para o fracasso. A mãe já preveniu, o amigo alertou, a mulher abomina a ideia e o consultor que ele contratou confirma a inviabilidade do negócio, mas ele não desiste.

O fracassado crônico contraria todas as opiniões sensatas que ouve e depois bota a culpa do insucesso na falta de estímulo dos parentes e amigos.

Situações assim se reproduzem aos milhares pelo mundo afora, muito embora vez por outra apareça um Bill Gates pra contrariar a regra e quebrar a banca.

Entre os pacientes com transtornos psicóticos um dos primeiros sintomas de um surto é a sucessão de conflitos com todas as pessoas do seu convívio próximo. Os pais, vizinhos, marido ou esposa são os principais vilões de uma trama que tem a intenção de limitar seus poderes recém descobertos. Muitas vezes é possível detectar o “cavalo do inglês” a tempo de prevenir uma situação mais grave.

Não se trata de desestimular ideias originais, mesmo porque a maioria dos teimosos são bastante triviais. A insistência mais comum consiste em repetir uma experiência antiga que fez sucesso de uma forma bem específica e fracassou com todas as tentativas de reproduções genéricas.

A maioria dos teimosos apenas copia algo, mas existem as exceções.

Existe uma teimosia louca, uma teimosia chata e uma teimosia genial.

Para as pessoas com ideias originais vale a máxima de Thomas Edison: “Eu não falhei, apenas encontrei cem diferentes soluções que não deram certo”. Ou ainda: sucesso é uma nova tentativa depois de centenas de fracassos.

Mas lembrem-se, ele era o Thomas Edison, uma espécie de Bill Gates do seu tempo.

A teimosia é a causa de muito sofrimento, brigas e frustrações, mas não existe genialidade sem uma boa dose dessa mesma teimosia.

O problema é que para cada gênio existem milhares de cavalos ingleses.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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