O camarada Givaldo tem toda a razão

por Luiz Paulo Vellozo Lucas

(ou sobre o populismo, nesse caso, político)

A história é mais ou menos assim, e me foi contada por Givaldo Siqueira, que era do Comitê Central do Partidão, o antigo Partido Comunista Brasileiro:

Pafúncio (esse era o apelido dele, pela semelhança com o personagem da história em quadrinhos) era o Secretário da base do partido no Morro da Mangueira. O partido discutia a sua política para a próxima eleição: lançar muitos candidatos a vereador ou lançar um só.

Veio a reunião da base do Morro da Mangueira e um filiado, de nome Queiróz, defendeu que o partido deveria lançar somente um candidato, outro filiado, de nome Almeida, defendeu, por sua vez, que o partido deveria lançar muitos candidatos. Pafúncio, como secretário da base, foi chamado a dar a opinião dele.

Disse Pafúncio: “Bom, o camarada Queiróz tem toda razão. Realmente somos poucos e, então, é melhor lançarmos somente um candidato. O camarada Almeida também argumenta que como estamos na ditadura de que adianta lançarmos somente um candidato, mesmo que eleito nenhuma diferença fará na Câmara dos Vereadores. Melhor a gente aproveitar e lançar vários candidatos. Eu, até, poderia ser candidato da Mangueira”.

Givaldo, que presidia a sessão, então disse: Pafúncio, mas as posições dos dois são mutuamente excludentes. Ou é uma coisa, ou outra. Ou lançamos um candidato ou lançamos vários.

Pafúncio, sem perder a fleuma, disparou: “E não é que o camarada Givaldo tem toda a razão?”.

Assim são os populistas, pensam que é sempre possível negar a realidade dos fatos e acomodar todas as posições. Como nada defendem a não ser os seus próprios interesses, gostam de disfarçar isso com a concordância em relação a tudo e a todos.

Esse malabarismo de Pafúncio é cada vez mais difícil (para não dizer impossível), seja por que temos cidadãos mais atentos, seja por que as redes sociais permitem disseminar rapidamente as contradições e inverdades do discurso populista.

Populistas, por se negarem a fazer opções e a planejar, que, como Carlos Matus nos lembra, nos custam recursos de poder, acabam gerando indecisão e paralisia. Isso é o principal problema que afeta muitas cidades brasileiras.

As prefeituras, como indutoras fundamentais do desenvolvimento econômico das cidades, mas convivendo com as restrições da realidade, não podem ficar submetidas a esse tipo de gestão, que se transformam, de fato, numa grande indigestão para as cidades, se me permitem o trocadilho.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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