Memórias | Raymond Aron

Resenha por Luiz Paulo Vellozo Lucas

Raymond Aron

O gênero de biografias e de autobiografias gera, com alguma razão, muitas suspeitas. Tende-se, em ambos os casos, a se transformar o texto em hagiografia e a focalizar num “bla bla bla infinito” de fatos e datas. Algo muito chato e/ou forçado, no mais das vezes.

Muitas, no entanto, conseguem sair dessas armadilhas e fazer textos agradáveis para se ler e com substância para se pensar. Esse, com certeza, é o caso dessas Memórias que recuperei essa semana da biblioteca para comentar com vocês.

Raymond Aron (1905 – 1983) é, na opinião de muitos, entre as quais a desse missivista, o maior intelectual francês do século XX.

François Furet, intelectual e historiador francês (logo resenharemos um livro dele por aqui também) o classificou como “não apenas um grande professor, mas o maior professor na universidade francesa”.

Tony Judt, historiador britânico (esse já foi resenhado aqui uma vez e logo o será novamente), e estudioso da intelectualidade francesa, o chamou de “o insider periférico”. Destacando que “tendo escolhido conscientemente os desconfortos da honestidade e da clareza em uma cultura política e intelectual marcada por confusão e má-fé, Aron nunca reclamou de sua exclusão da comunidade intelectual dominante”.

Os méritos intelectuais, acadêmicos e de integridade política de Raymond Aron estão presentes no texto de suas Memórias.

Nesse texto que passeia pela vida de Aron, desde a mais tenra idade até 1982, ele coloca claramente suas posições. Desde suas divergências com o grupo de Sartre, Simone de Beuvoir e Maurice Merleau-Ponty, de quem havia sido amigo na juventude. Destaca seu trabalho com Albert Camus e a personalidade enigmática desse excepcional escritor franco-argelino.

Fala da sua passagem de estudos pela Alemanha, de sua admiração por aquele país e por sua intelectualidade, mas também da crítica ácida, dura, necessária, ao nazismo que assumia o poder quando ele retornava à França.

Destaca suas posições críticas ao comunismo – como ele mesmo destaca nem sempre críticas o suficiente – e das ilusões que essa ideologia causou no mundo, na Europa e na França, especialmente.

Fala de suas incursões analíticas em política internacional, com análises sobre a Guerra Fria, a crise do Sistema de Bretton Woods, as guerras do Vietnã e da Argélia (essas guerras, para ele, um assunto também nacional dado o envolvimento francês), e tantos temas mais. Descreve, com algum detalhe, sua amizade, desde os tempos da academia até o tempo do poder, com Henry Kissinger.

Comenta as várias crises políticas pelas quais a França passou ao longo do século e as suas posições sobre elas. Especialmente importante – e na época muito criticada – é a sua análise muito dura e realista sobre o excesso de valorização que se deu ao movimento de 1968, movimento exagerado pela presença da mídia, que desvaneceu como bruma assim que eleições foram convocadas e os grupamentos liberais franceses ganharam “de lavada”.

Sempre amparado em artigos, textos e outros materiais, vai Raymond Aron, de modo genuinamente – espantosamente, até – autocrítico, fazendo uma análise de sua vida, de suas posições e da França, da Europa e do mundo que o cercavam. Mas, aí um outro mérito da obra, olha para o mundo e percebe como esse influenciava seu existir, seu sentir e, principalmente, seu pensar.

Por mais crítico que posso ser, não consegue Aron quebrar a espinha da linha geral de coerência liberal e racional – num território tão hostil ao liberalismo e ao racionalismo quanto à França dos intelectuais do pós-Guerra – de sua vida. Como ele, muito criticamente, uma vez destacou, os intelectuais franceses não buscam nem entender o mundo, nem transformá-lo, mas denunciá-lo.

Aron foi um mestre da razão. Sua vitória ao obter grande reconhecimento público, já nos anos finais de sua vida, depois de tantas vissicitudes intelectuais e políticas, é uma grande vitória para todos nós. Com certeza, por sua coerência e pensamento claro, firme, racional, merece inspirar a todos nós.

O livro, por certo, merece muitíssimo a leitura.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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