Memória do mal, tentação do bem: indagações sobre o século XX

por Luiz Paulo Vellozo Lucas

Todorov é um humanista.

Um defensor da democracia, que se preocupa com os seus dilemas e problemas, um liberal que reconhece que a sociedade não possui valores absolutos. Búlgaro de nascimento, deixou àquele país, dominado então pelo comunismo, em 1963, morando, desde então, na França. Esse seu livro é uma excelente análise do século XX, destacando a partir de uma discussão da memória os dois regimes políticos chaves da época: totalitarismo (nazismo e comunismo) e a democracia.

Memória do mal, tentação do bem
Brilhante a análise comparativa que estabelece entre os dois regimes. O totalitarismo, destaca ele, não permite a autonomia do indivíduo, usa a autonomia do coletivo como mero discurso e não trabalha com o ideal de justiça, entendido como ética. A democracia, e essa é uma fonte permanente de sua tensão, reconhece, sem absolutizar, tanto a autonomia individual, quanto à coletiva. Limitadas estas por valores éticos da sociedade.

A beleza do livro está também no fato de a cada análise conceitual-teórica que vai fazendo ao longo dos seis capítulos da obra ele nos apresenta um personagem do século XX, como, digamos, um representante que percebeu, analisou, compreendeu, intuiu e/ou sofreu daquilo que se trata. Assim conhecemos Vassili Grossman, e sua percepção das diferenças entre os totalitarismos e a democracia, presentes em sua obra clássica Vida e destino; ficamos sabendo do sofrimento e luta de Margarete Buber-Neumann, que passou pelos campos de concentração comunista e nazista; ou o relato sobre as desventuras de Primo Levi e como superou seu trama no campo de Auschwitz com o uso da memória, relatada em várias de suas obras, especialmente o clássico relato de “É isto um homem?”.

O totalitarismo, destaca Todorov, “contem uma promessa de plenitude, de vida harmoniosa e de felicidade. É verdade que ele não a cumpre, mas a promessa continua ali, e sempre podemos pensar que a próxima vez será a boa [esse é o discurso dos defensores do totalitarismo comunista até os dias de hoje], e que seremos salvos”. Já a democracia liberal, afirma, “não comporta promessa semelhante; empenha-se somente em permitir que cada um, por si mesmo, busque felicidade, harmonia e plenitude. Na melhor das hipóteses, garante a tranquilidade dos cidadãos, a participação destes na condução dos assuntos públicos, a justiça nas relações deles entre si e com o Estado; ela não promete absolutamente a salvação”.

Tem sido a democracia, no entanto, e não o totalitarismo, que construiu as melhores condições de vida coletiva e individual para os seres humanos. A tentação de fazer o bem de modo absoluto só conduziu a tragédias em larga escala.

O livro de Tzevetan Todorov é simplesmente clássico. Eu recomendo com louvor. Boa leitura.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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