Lixo: problema ou oportunidade?

por Luiz Paulo Vellozo Lucas

O lixo nosso de cada dia

Um dos problemas mais graves com que se defrontam as cidades brasileiras é a questão dos resíduos sólidos, o famoso lixo, que produzimos. A situação é grave e tem se agravado ainda mais ao longo dos últimos anos.

No período entre 2003 e 2014, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o crescimento da produção de lixo foi da ordem de 29%, enquanto a população cresceu 6%. O Brasil todo produziu cerca de 78 milhões de toneladas de lixo em 2014. Uma média de 1,062 quilo de lixo por dia por habitante.

Segundo a Abrelpe 41% do total de lixo que produzimos vai para lixões ou aterros controlados, que não são garantia alguma para a saúde pública. Mesmo alguns aterros sanitários não respondem às exigências legais de proteção à saúde pública e conservação do meio ambiente. A Lei 12.305/2010, que trata da Política Nacional dos Resíduos Sólidos, acaba por não ser implementada em vários de seus aspectos, especialmente no que diz respeito à reciclagem e a chamada logística reversa.

Os custos de coleta são enormes e crescentes. Pagos pelas prefeituras, são bancados, por óbvio, pelos cidadãos por meio da Taxa de Coleta de Lixo ou algo com nome similar dependendo de cada cidade. Em Vila Velha, por exemplo, esse custo é da ordem de R$ 12.000.000,00 (doze milhões de reais) por ano.

A realidade se torna ainda mais negativa, se pensarmos que boa parte – a maior parte – daquele material descartado pode ser transformado em algo de valor. Existem excelentes experiências de reciclagem de lixo em países como Bélgica, Alemanha, Áustria e Holanda.

Na Holanda, por exemplo, 80% de todo o lixo é reciclado, 16% incinerado e somente 4% vai para aterros sanitários. Lá aplica-se um processo de três pontas: educação sobre o tema, estímulo às boas práticas e punição financeira para os que insistem em produzir muito lixo. Aqui no Brasil reciclamos apenas 13% de nosso lixo. Muito pouco.

Na União Europeia como um todo a gestão eficiente e ecologicamente consciente dos resíduos sólidos gera, segundo dados de 2010, 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do Bloco, num mercado que emprega 2 milhões de pessoas e gera renda de 145 bilhões de euros por ano (cerca de R$ 600 bilhões).

Lixo não é lixo. Lixo reciclado é emprego, renda, ambiente preservado, vidas com mais saúde. Precisamos, por certo, melhorar a gestão dos resíduos sólidos em nossas cidades. Esse é um desafio central para a qualidade de vida dos nossos cidadãos.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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