Kakay, o magnífico, em a batalha das biografias

por Luiz Paulo Vellozo Lucas

A batalha das biografias

Por um placar digno de Alemanha x Brasil, a batalha das biografias acabou. E na Folha desta quarta, houve um pequeno duelo entre os advogados das partes que disputaram o processo no STF.

Mas quem pode ser contra a liberação das biografias no Brasil? Roberto Carlos claro. Ele já proibiu uma, pode ser que venham outras, melhor não arriscar. Segundo PC Araújo, seu biógrafo devidamente não autorizado, Roberto vive no mundo do dinheiro. Uma biografia não lhe devassa sua intimidade e honra; para o Rei, é simplesmente um livro que ganha dinheiro às suas custas.

E já que não lhe falta, RC contratou Kakay, o João Santana dos tribunais. Lendo o artigo, assinado por ele e sua sócia, há de se concordar que ele vale o quanto seja lá que o Rei lhe paga. Sua retórica é coisa fina.

Começa assim:

“Se você não consegue entender o meu silêncio, de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos.”
Oscar Wilde (1854-1900)

O processo de engabelamento do leitor começa. Pra empatia ter chance, um artigo na Ilustrada tem que começar com citação de algum autor canônico. O biografado aqui não é um censor em busca de compensações financeiras; é alguém com sentimentos que lê Wilde.

“O acesso à informação é poderoso elemento para a formação de opinião. O respeito à individualidade é instrumento para a formação de uma sociedade livre e plural.”

Aqui ele poderia ter escrito: o céu é azul e adoro pão quentinho. Os autores sabem que estão defendendo o indefensável, daí duas platitudes irrecusáveis.

“Afirmar a superioridade do direito à informação sobre a intimidade será uma censura ao cidadão que quer ver preservada sua privacidade. Fazer uma objeção, desde que fundamentada, é um direito.”

Essa parte é ótima. Uma das regras do marketing político é usar a bandeira do adversário como se sua fosse. A palavra censura, tantas vezes repetida contra eles, é usada aqui a favor da causa. Aqui é a Anel (Associação do Editores) a censora.

É direito do biografado impedir que a sua vida seja dilacerada, adulterada.

Essa frase é pura sofrência.

Lá pelo final do artigo, o samba do Kakay doido entra na avenida, e ele joga um “sem censura prévia” no texto. Hein? A manchete no cabeçalho não dizia em letras garrafais, PELA RESTRIÇÃO? Censura prévia não foi exatamente o que tirou “Roberto Carlos em Detalhes” das prateleiras?

Hoje no jornal, Kakay disse que só lutou pelo direito do biografado recorrer a justiça caso se sinta lesado. Mas esse direito não era o que estava na pauta do Supremo. A pauta era se o artigo 20 e 21 do Código Civil se aplicam à biografias. “Estamos muitos felizes” disse Dody Sirena, empresário de RC. Enfim. Nenhuma agenda positiva vai conseguir tirar do Rei a pecha de censor.

Já o artigo da outra parte é bastante prosaico. À ela só lhe couberam os fatos.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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