Impressões do primeiro encontro

por Sergio Vellozo Lucas

Histórias

Jorge tinha um amigo de quem gostava muito, Afonso era um sujeito culto, muito inteligente, que um belo dia ficou encantado com uma linda moça, de quem Jorge ainda era amigo, apesar de um tórrido affair entre eles no passado. Não é verdade dizer que o sexo sempre acaba com a amizade, isso só acontece na esmagadora maioria das vezes.

Essa história começa com essa exceção.

Rosilene era uma uma mulher de muitas qualidades, infelizmente a inteligência não era uma delas. Pra falar a verdade ela era meio burrinha, isso tinha atrapalhado o relacionamento com o Jorge depois que o sexo deixou de ser novidade, mas, a seu favor, ela tinha uma simpatia contagiante e era uma mulher muito atraente.

Alfonso quis saber se Jorge não se opunha ao interesse dele, um clássico comportamento ético da fraternidade masculina. É praxe pedir permissão ao amigo que chegou primeiro e também é de bom tom dizer que não há problema algum, embora muitas vezes haja problema sim. Mal sabem eles que, quase sempre, é ela quem vai fazer a escolha no final das contas.

Nesse caso, Jorge não tinha nada contra mesmo, muito pelo contrário, achou que, a despeito da diferença de intelecto, eles poderiam fazer bem um ao outro.

Alfonso era introvertido, Rosilene espevitada, ele saindo de uma relação com uma mulher tóxica, ela de um aproveitador, então Jorge achou que ambos ficariam melhores um com o outro e decidiu servir de intermediário.

Na verdade, bastou anunciar a ela o interesse do amigo, que tudo foi se encaixando naturalmente, Rosilene gostava do universo de Jorge.

Depois de algumas hesitações, eles finalmente saíram juntos. Alfonso ficou imediatamente fascinado! Quando Jorge o encontrou no dia seguinte, ele só tinha elogios superlativos para a moça.

_ A Rose é um espetáculo, linda de morrer e apesar disso ela é modesta. E você nem tinha me dito que além de tudo ela é inteligentíssima, será que tava escondendo o jogo?

Jorge não disse, mas pensou com os seus botões:

Inteligentíssima? Será que ele saiu com a Rose errada?

_ Que sorriso, meu deus, sua gargalhada é capaz de animar até um velório – prosseguiu o amigo, animado.

Não, esse sorriso e essa gargalhada eram dela mesmo. Daí a ser inteligente … o que é que a paixão não faz, imaginou Jorge, sorrindo por dentro.

Alguns dias depois, Jorge se encontrou com Rosilene. Ele não costumava ser enxerido com a vida dos outros, mas nesse dia admitiu pra si mesmo: estava curiosíssimo. O que será que ela disse pra Alfonso considera-la um gênio da raça? Na verdade, veremos que foi o que ela não disse.

_ Jorge nem precisou perguntar sobre o encontro, Rosilene estava doida pra contar tudo.

_ O seu amigo é uma gracinha … – disse ela de forma genérica, deixando reticências ambíguas no ar – ele estava muito travado no começo, mas foi se soltando aos poucos e depois praticamente não parou de falar.

_ É mesmo? Então ele gostou de você, porque normalmente o Afonso não é de falar muito – retorquiu Jorge, querendo botar uma pilha nova no ânimo dela, que nem de leve estava com a mesma carga que o dele.

_ Nossa, comigo ele falou o tempo todo, eu nem estava entendendo muito e confesso que depois de algum tempo não estava mais nem prestando atenção. O papo desse cara é muito complicado, Jorge.

Essa história é livremente baseada em fatos reais e aqui eu faço um parêntese para um comentário, antes de concluir a narrativa.

O relato neutro dela é mais fidedigno do que o relato apaixonado dele. Eis o que se passou de verdade entre eles.

Ele, encantado, depois de um início titubeante, se sentiu à vontade e resolveu apresentar a ela o que achava que tinha de melhor: sua cabeça e sua cultura. Fez raciocínios filosóficos profundos, explicou a abordagem ontológica da teoria de Gaia e a interface do homem contemporâneo com os seus medos primais.

O silêncio dela foi interpretado como aquiescência e ele projetou nela a sua própria capacidade intelectual. Ele se inspirou com a audiência dela e a considerou uma coautora das idéias novas que pintaram na sua mente enquanto ele ia desenvolvendo suas teorias.

Projetamos nos outros aquilo que somos, para o bem e para o mal, acontece o tempo todo, é só olhar o Lula falando dos seus adversários, que identificamos claramente as suas próprias perversões projetadas em seus inimigos. PQP, até aqui o Lula conseguiu aparecer pra encher o saco, enquanto não for preso, vai continuar assombrando a minha cabeça.

Voltando ao ponto, eu pretendia falar sobre os primeiros encontros.

Em encontros amorosos, a primeira impressão é tão importante quanto mal avaliada. Quando gostamos de alguém, atribuímos nossas melhores características a essa pessoa, tal e qual fez o Alfonso com a Rosilene nesse encontro.

Se não estamos muito impressionados com o visual, lançamos um olhar crítico em busca de elementos que possam ser de interesse. Quase sempre poder e dinheiro, mas o senso de humor e presença de espírito também entram na equação.

Rosilene claramente não ficou tão impressionada com a figura de Alfonso, por isso mesmo olhou pra ele com critérios mais objetivos, mesmo assim não teve a menor ideia de quem ele realmente era.

Ela sabia que ele era um intelectual, como o próprio Jorge, mas não sabia se ele também era tão bem sucedido como Jorge, na verdade ela esperava que Alfonso pudesse ser tão interessante quanto o Jorge tinha sido e tinha se desapontado um pouco.

Após o primeiro encontro, ela ainda não sabia se valia a pena tentar entender a conversa do Alfonso, ou se definia logo que ele era somente um chato.

A opinião do Jorge era importantíssima de uma forma muito diferente para cada um dos dois.

Para Alfonso, Jorge foi um conselheiro, um mito, um canalha, um santo, mas no fundo foi sempre um amigo.

Para Rosilene, Jorge também foi conselheiro, ela o via como fonte permanente de interesse, um guru, um amigo especial, e ele era mesmo, mas Jorge era antes de tudo um homem.

O fato é que o primeiro encontro só resultou em impressões erradas, mesmo que nenhum dos dois tenha tentado se exibir de um jeito diferente que do eram efetivamente no dia-a-dia. Alfonso podia ter muitos defeitos, mas estava longe de ser um chato e a Rose era tudo, menos uma mulher inteligentíssima.

Não é fácil reconhecer a essência do outro.

Apesar e também por causa das falsas impressões do primeiro encontro, a história dos dois teve muitos desdobramentos posteriores. Os capítulos seguintes foram vividos como drama, mas, olhando de fora, poderia muito bem ser visto como comédia, tudo depende do olho de quem vê, ou do sentimento de quem conta a história.

Toda história têm muitas versões. Essa tem a versão do Jorge, a do Afonso, a da Rosilene, a minha e a partir de agora tem a sua também.

Mas hoje eu vou ficar somente no primeiro encontro, qualquer dia eu conto o resto.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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