Fingebant simul credebantque?

por Luiz Paulo Vellozo Lucas

Notícias falsas.

Essa frase em latim que dá título ao post de hoje é de Cornélio Tácito, ou simplesmente Tácito, um historiador e político romano, e foi retirada de sua obra Annales. Na obra de Tácito ela vem sem a interrogação (está no título por minha conta) e faz menção, como nos explica Carlo Ginzburg em sua obra Medo, reverência, terror, a “eventos circunscritos, como a circulação de notícias falsas”. Nesse post de hoje vai com esse sentido também, notícias falsas que o governo tenta nos vender como verdadeiras.

O que, no entanto, significa essa frase? Na tradução na obra de Ginzburg ela é traduzida como “imaginavam e ao mesmo tempo acreditavam nas próprias imaginações”. Será que os ministros Joaquim Levy (Fazenda) e Nélson Barbosa (Planejamento) acreditam mesmo naquilo que falavam ontem ou apenas imaginavam que todos iriam acreditar? Se forem, como espera-se sejam, pessoas com o mínimo de sensibilidade e inteligência, a resposta para as duas perguntas, penso eu, é não.

Me lembrei da ideia dessa frase, e então busquei no livro, ao – estarrecido – tomar conhecimento dos detalhes desse pacote de insanidades apresentado ontem pelo governo. Insanidade porque desconsidera o ambiente político e econômico do país, insanidade porque o governo não tem a menor chance de aprovar a maioria das medidas nele apresentadas.

O governo não tem chance de aprovar esse pacote, que de corte de despesas tem apenas a postergação de reajuste dos salários dos servidores públicos federais, o resto é transferência de uma rubrica pra outra e a recriação da Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF), porque não tem credibilidade, porque não sabe onde quer chegar com esse pacote, porque não tem projeto para o país, porque não enfrenta as dificuldades estruturais que temos.

Infelizmente, vamos assim, continuar, semana após semana, dia após dia, sendo sobressaltados com peças de marketing governamental para tentar mostrar que está “enfrentando a crise”, que ele mesmo criou e que só faz ampliar com esses malabarismos propositivos.

Conseguirá algum refresco, sempre e cada vez mais temporário, com esses anúncios que rapidamente se desmancham no ar, mas a cada momento os cidadãos brasileiros assombrados pelas dificuldades concretas da vida se perguntam, mesmo sem conhecer Tácito ou o latim, Fingebant simul credebantque? Será que imaginavam e ao mesmo tempo acreditavam nas próprias imaginações? Ninguém mais acredita, ninguém mais dá credibilidade a essas imaginações governamentais.

Governo falido que só faz agravar a crise do país. Isso, com certeza, não é imaginação.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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