Ethos e teleologia petista

por Luiz Paulo Vellozo Lucas

Vítimas?

O Partido dos Trabalhadores (PT), mais uma vez, aproveita da crise em que se meteu, por conta de negócios escusos operados por membros de destaque de sua estrutura, para se vitimizar. Numa típica mentalidade de “estado de sítio” a nota da Comissão Executiva Nacional do partido se apresenta como que cercada pela “escalada conservadora da oposição, da mídia monopolizada e de agentes públicos, com o nítido objetivo de enfraquecer o governo Dilma, criminalizar o PT e atingir a popularidade do ex-presidente Lula”*. O programa gratuito do partido, exibido nesta quinta-feira, também foi na mesma linha, em que pese num tom mais ameno.

Prosseguem se apresentando como os criadores das conquistas da sociedade brasileira, tentando, dessa vez, mostrar uma postura mais humilde ao destacar que “registram-se em nosso país tentativas de anulação de conquistas populares, de destruição de lideranças populares e partidos que exercem um papel destacado nessas conquistas”. Já no programa de TV se mostraram como os responsáveis por encher as panelas dos brasileiros. Apostando numa ironia canhestra, mostram desprezar o papel do esforço dos próprios cidadãos e da estabilização monetária para produzir uma vida melhor**.

Desconhecem, para inglês ver, o que pratica o seu governo quando, demagogicamente, afirmam no documento que “Portanto, é fundamental reverter a política de juros atualmente praticada pelo Banco Central”.

E, como nada entendem de economia, insistem no receituário, fácil e falso, que nos levou ao desastre atual, de “Além da redução da Selic, é importante baixar as taxas para o crédito consignado e para o consumo. Frente à queda da arrecadação e a necessidade de continuar financiando os programas sociais e os investimentos em infraestrutura, urge taxar as grandes fortunas, os excessivos ganhos dos rentistas e as grandes heranças”.

O velho “nós contra eles”. Na TV em que pesem falar inúmeras vezes as palavras crise e erros (devem estar se referindo às crises econômica e política e à corrupção) vem sempre com o discurso, mas já houve piores. O velho nós sempre fazemos melhor ou menos pior.

Arrogância pura.

Esses documento e programa de TV petistas, mais esses, revelam o ethos e a teleologia do partido.

Mais uma vez os petistas gostam de se apresentar como os donos da virtude, os bons, os probos, os melhores, os “soldados do povo brasileiro”. Mentira, enganação. Meteram-se em negócios escusos, corrupção, desvios, como demonstrado ontem na entrevista coletiva sobre a 17ª fase da Operação Lava Jato, desde o início do seu governo.

O ethos petista gosta de se apresentar, assim, como os únicos que podem garantir a felicidade do povo, quando, na verdade, o que nós entregam, após quase treze anos no poder, são escândalos bilionários, crise, inflação, desemprego, recessão.

Tão falsos são que ousam convocar, como se fossem os seus donos, uma “jornada de defesa da democracia”. Tão paroleiros são que acusam a Justiça e o Ministério Público de, com a Operação Lava Jato, brilhantemente conduzida, quererem implantarem o “Estado de Exceção sendo gestado em afronta à Constituição e à democracia”.

Como fica difícil sustentar esse ethos falso e demagógico a outra parte da defesa petista aponta para os fins últimos, a teleologia, de criar o bem, produzir a bonança para os pobres e necessitados. O projeto, querem nos dizer eles, nos levará à terra prometida da abundância.

Falsos messias, na verdade corruptos muitos deles, coniventes outros tantos e inocentes muitos (cada vez menos) que ainda acreditam.

Assim, pela “enésima” vez desde que estourou o Mensalão, e agora o Petrolão, encaminhando-se para o Eletrolão, vai o PT querendo mistificar a sociedade brasileira com um falso ethos e uma teleologia mentirosa. Por sorte, cada vez mais, os brasileiros percebem que tudo isso não passa de uma cortina de fumaça para tentar evitar conhecer o inevitável: a lamentável situação em que colocaram o país e o fim dessa triste experiência política que estamos suportando.

O país precisa de presente e futuro. Os brasileiros, apesar de todas as dificuldades, continuam tendo esperança. Temos, que construir, nos espaços que temos nos estados e municípios, nas empresas e no trabalho, na nossa vida profissional e pessoal, as alternativas enquanto o desenlace político no âmbito federal não acontece. Só assim, a transição será menos penosa. Como disse anteontem, inspirado em Nizan Guanaes, precisamos fazer a nossa moqueca de cação.

* Todos os trechos da Nota da Comissão Executiva Nacional do PT, de 04 de agosto de 2015, foram retirados no site do Jornal do Brasil

** Anteontem o Ministro Aloísio Mercadante reconheceu que foram os governos de FHC que construíram a estabilidade da moeda no país. Bem humilde para alguém que até outro dia achava que havia criado e construído o Brasil moderno.

Ethos
É conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de uma determinada coletividade, época ou região. “o é. da Antiguidade grega, do povo brasileiro, dos nordestinos”.

Teleologia
É qualquer doutrina que identifica a presença de metas, fins ou objetivos últimos guiando a natureza e a humanidade, considerando a finalidade como o princípio explicativo fundamental na organização e nas transformações de todos os seres da realidade; teleologismo, finalismo.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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