Encontros. Uma história de esperança no ser humano

por Sergio Vellozo Lucas

Pessoas

Passaram no meu caminho algumas pessoas anônimas, completamente desconhecidas, que em breves encontros marcaram para sempre suas passagens na minha vida. São pessoas que fazem o bem de forma discreta, despretensiosa até. Fazem o bem porque essa é a sua natureza, pessoas que dão sentido à palavra humanidade.

Nessa cínica era de Lula, é confortante lembrar que existe gente assim.

Essa é a minha história com uma delas.

O anjo do samba.

O vento frio da madrugada me manteve acordado na proa da barca durante a travessia que me levava de Niterói de volta ao Rio de Janeiro.

O sol ainda não tinha despontado e a Praça XV já tinha uma atividade frenética. A turma da feira de antiguidades se movimentava sem atrapalhar a equipe de garis que estava se esforçando para deixar a praça limpinha.

Minha cabeça estava resistindo bem ao álcool que tinha embalado a festa do Diretório Acadêmico da medicina na véspera. Me arrastei cansado através do inesperado movimento da praça em busca do chevete branco que tinha estacionado ali ha cerca de 20 horas atrás.

No caminho não tive como não reparar na alegria de um gari negro com a cabeça completamente branca e idade indefinida. A agilidade dos seus passos de sambista contrastava com as com as rugas e os cabelos brancos. E que ritmo! Ele cantarolava, sambava e de vez em quando ainda batucava uma caixa de fósforos enquanto varria a praça.

Como é possível alguém trabalhar com tanta disposição na madrugada de um sábado?

Quanto a mim estava exausto, mas me sentia bem o suficiente para dirigir, ainda não havia a lei seca pra tomar essa decisão em meu lugar. Tudo o que eu queria era chegar logo em casa pra cair na cama.

Mas a vaga aonde deveria estar o meu carro estava vazia. Ainda procurei aflito em alguns lugares próximos, embora tivesse absoluta certeza do local aonde tinha estacionado.

Roubaram o meu carro! Eu estacionava ali direto e conhecia bem o flanelinha que tinha me cobrado mais caro para garantir que não haveria o menor risco em deixar o carro por tanto tempo naquela vaga.

Extenuado, sentei no meio-fio e enfiei a cabeça entre os joelhos com os braços por cima numa posição fetal que traduzia o desânimo que se abateu sobre mim.

Pra piorar eu tinha torrado todo meu dinheiro e não tinha mais nem um centavo para o ônibus. Era uma longa caminhada até o Leblon, aonde ficava a república que eu morava, não havia celulares na época e mesmo que eu tivesse uma ficha telefônica não conseguiria que ninguém acordasse na alvorada da manhã de sábado.

Considerei tentar convencer o trocador a me deixar pular a roleta, mas eu sabia que era duplamente difícil, tanto para vencer o orgulho de implorar, quanto para encontrar um trocador que se comovesse com a minha história.

Uma sonolência difusa começou a se instalar em mim quando as primeiras luzes da manhã faziam força para clarear o horizonte cinza escuro. A chuvinha fina de nuvens grossas foi me molhando aos poucos e ampliando a sensação de que a noite não ia acabar dentro de mim

De repente o burburinho distante do samba foi chegando mais perto e eu comecei a acompanhar mentalmente a letra triste daquela melodia alegre.

“Quantas belezas deixadas nos cantos da vida,
Que ninguém quer, ninguém mesmo procura encontrar.
E quando os sonhos se tornam esperanças perdidas
Que alguém deixou morrer sem nem mesmo tentar”

“Minha beleza encontro no samba que faço,
Minha tristeza se torna um alegre cantar.”…

Levantei a cabeça e vi o gari negro da cabeça branca bem na minha frente, ele estava cantando esse samba maravilhoso pra mim. Esbocei um sorriso agradecido, acho que isso o encorajou a sentar do meu lado.

_ O que é que deixa um jovem como você tão triste assim? Eu já estou terminando meu horário de serviço, vamos sair dessa chuva.

O jeito dele, talvez a voz grave, o olhar terno e o interesse genuíno pelo problema de um sujeito que ele nunca tinha visto na vida tenham me inspirado a confiança pra me abrir de uma forma incomum para o meu temperamento. Encostamos numa parede embaixo de uma marquise e eu fui contando a minha desventura.

Quando eu terminei a ladainha, ele falou com convicção:

_Eu sei exatamente o que você precisa.

E me levou em seguida para uma padaria próxima pra tomar um média (café com leite em carioquês) com um pão saído do forno naquele instante, com a manteiga derretendo.

Eu reafirmei que não tinha dinheiro, mas ele insistiu e falou que era por conta dele. Eu sabia que o dinheiro poderia fazer falta, mas ele falava de um jeito que não admitia recusa, além disso eu estava com fome e o cheiro do pão estava irresistível.

A conversa durante o café foi repleta de histórias bem humoradas, cheia de uma sabedoria simples que foi aos poucos restaurando o meu ânimo.

Ele me disse que o flanelinha tinha me enganado e que era proibido estacionar ali, talvez o meu carro tivesse sido rebocado.

De repente, com naturalidade, um a um todas as diferentes figuras que estavam na padaria naquela hora da manhã começaram a participar da prosa. A conversa foi se ampliando e ficando mais animada, o meu novo amigo puxou um samba na caixa de fósforos e todo mundo acompanhou.

“Por isso a nostalgia tomou conta de mim,
Mas um amigo percebeu e disse assim,
Para que tanta tristeza, rapaz?”

“Acabe com ela e vem comigo conhecer a Portela, Portela.
Fenômeno que não se pode explicar. Portela, Portela
Uma corrente faz a gente, sem querer, sambar.”

“O samba fez milagre e reabriu meu coração para a Portela entrar.”

Em pouco tempo estávamos todos cantando e sambando.

Com a barriga e o coração aquecidos, eu já estava em condições de caminhar os quinze ou vinte quilômetros até o Leblon, mas já não estava mais com pressa.

Algum tempo depois o meu amigo tinha que ir embora e me chamou, já era quase meio-dia. Fomos para o ponto de ônibus e ele quis me dar o dinheiro da passagem, eu recusei com firmeza. Não podia abusar da sua boa vontade e ficar com o dinheiro suado dele.

Não foi necessário, ele reconheceu o motorista da linha Usina-Leblon, explicou que eu estava duro e pediu que ele quebrasse o meu galho e me desse uma carona. O motorista foi generoso, me deixou entrar pela frente (naquele tempo se entrava no ônibus por trás para passar pela roleta e pagar a passagem) e ainda foi conversando comigo até o ponto final na praça Antero de Quental no Leblon.

Quando cheguei em casa é que me dei conta que não sabia nem o nome do meu benfeitor. Naquela noite eu fui ao ensaio da Portela no Mourisco, antiga sede do Botafogo, os sambas adquiriram um novo significado pra mim.

O meu carro tinha sido mesmo rebocado. Ele tinha me dito qual era a garagem para onde levavam os carros rebocados na Praça XV, meu chevetinho estava lá.

Perguntei varias vezes por ele naquele bar-padaria da Praça XV, mas ninguém nunca soube me dizer quem ele era. Passei a tomar café ali habitualmente, o pão nunca mais foi tão saboroso como naquela manhã de sábado e nem de leve vi a mesma animação por ali.

Paguei médias com pão com manteiga para diversas pessoas ali na Praça XV como um tributo ao meu amigo. Uma forma de celebrar aquele encontro feliz.

Nunca mais o vi, mas jamais vou esquecer aquele homem notável, um verdadeiro anjo de ébano.

Em poucas horas ele fez de mim uma pessoa um pouco melhor para o resto da minha vida.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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