Encontros 4. O nome dele era Enéas

por Sergio Vellozo Lucas

Cardiologia

Eu estava no oitavo período de medicina na UFF e tinha me apaixonado pela cardiologia. Dr. Paretto Jr. foi o culpado, tinha sido um excelente professor, do tipo que ensina incutindo no aluno um desejo de saber mais sobre a matéria, sua paixão e a excelência na profissão ajudavam.

O curso passou como um relâmpago e eu senti vontade de continuar estudando aquilo. Havia vários cursos extra-curriculares disponíveis, a maioria em outras universidades, não era fácil escolher entre eles.

Foi nessa época, 1984 ou 85, a primeira vez que ouvi falar no professor Enéas Carneiro.

Gênio, divertido, excêntrico, histriônico, insuportável, autoritário, os adjetivos eram contraditórios e superlativos quando se tratava do dr. Enéas, mas todos eram unânimes em dizer que ele era um dos melhores, senão o maior especialista em eletrocardiograma no mundo. Era óbvio que não se tratava de um professor comum.

Ele ainda estava longe de ser a celebridade excêntrica que se tornou após a primeira das eleições presidenciais que participou, mas já era famosíssimo no meio acadêmico. Seu livro ” O Eletrocardiograma” era referência nas principais universidades do planeta, não tive dúvidas do curso que faria quando li o currículo dele.

O curso, em um auditório da Universidade Souza Marques, teria cento e cinquenta vagas e a duração de dez aulas, de duas a quatro horas. Seria ministrado exclusivamente pelo dr. Enéas, todas as quintas-feiras às 20h. Perfeito, dava pra ir direto do hospital Souza Aguiar, o meu plantão no pronto-socorro terminava às 19h.

Estava cheio de expectativa para a primeira aula, cheguei em cima da hora e encontrei uma enorme fila na entrada do auditório.

Dr. Enéas estava na entrada, cumprimentava pessoalmente, um a um, os seus futuros alunos. Era uma figuraça, pequenino, parecia um anão de jardim, ligado numa tomada 220V. Sua imagem me lembrava o desenho de um careca-barbudo, popular na minha infância.

Na fila, me peguei imaginando o dr. Enéas de cabeça pra baixo, tal e qual o desenho, a careca seria o queixo e a barba viraria um cabelo espetado pra cima tipo a Marge Simpsom. O vinco da testa se transformava em uma boca de expressão severa. O curso nem tinha começado e eu achei que ia ser difícil prestar atenção na aula.

Na minha vez, ele estendeu a mão com um sorriso no rosto , perguntou meu nome, meu endereço e a instituição que eu estudava. Não, ele não se apresentou falando “MEU NOME É ENÉAS”, na verdade foi bem discreto e simpático, me entregou uma folha com o roteiro da aula e outra com o planejamento de todo o curso.

Lembro que ele chamava a todos de doutor:
_Muito prazer doutor Sergio Lucas – disse, quando me encaminhou para dentro do auditório.

A aula foi um espetáculo, além da imensa cultura, o homem era um show-man. No primeiro dia, ele explicou a natureza do impulso elétrico cardíaco. Começou com a física que envolve o próprio impulso e a física da máquina que capta esse impulso para transcrever no papel. Ele também era formado em física e matemática, falou sobre potenciais de ação e vetores, a aula tinha tudo para ser um saco.

Não com dr. Enéas.

Ele tinha um entusiasmo de torcedor em final de campeonato, explicava temas complexos como quem narra um filme de suspense, deixava o espectador interessado no que iria ocorrer em seguida. Fazia questão de parar para responder as perguntas de quem levantava a mão e retomava a aula sem nenhuma dificuldade. Tinha um particular talento para dar respostas interessantes, mesmo para as questões mais estúpidas.

Era paciente com todos, exceto com quem fazia perguntas que deixavam claro que o sujeito estava fazendo qualquer outra coisa que não prestando atenção no que ele tinha acabado de dizer. Tinha gente que perguntava o que já estava escrito no quadro-negro ou nas folhas que ele tinha distribuído. Falta de interesse ele não perdoava.

Nesses casos ele dava um esporro erudito, usava termos e expressões que ninguém sabia exatamente o que significava. Ele sabia disso, tinha um senso de humor bem peculiar. Nos dias de hoje, talvez alguns estultos (essa eu aprendi com ele) considerassem bullying, eu posso assegurar que ele era um gentleman.

Pra mim, essa foi uma época atarefada, o trânsito carioca nem sempre permitia ir da avenida Getulio Vargas até Cascadura em menos de uma hora, na terceira ou quarta semana eu cheguei atrasado pela primeira vez. O dr. Enéas tinha avisado que não gostava de atrasos.

O auditório tinha o desenho interno de um teatro romano, nós entrávamos num andar acima do tablado e do quadro negro,de onde a aula era ministrada. Cada degrau tinha uma fileira semi-circular de cadeiras, eu me sentei bem no alto, perto da porta, para não chamar a atenção.

Foi inútil, quando entrei ele olhou imediatamente pra cima em minha direção e interrompeu a aula por uma fração de segundos, enquanto todos os olhos se voltaram para mim. Retomou imediatamente o assunto sem comentar o meu atraso, nem perder o ritmo e, mais importante para mim, sem dar tempo do silêncio se tornar um constrangimento.

Duas semanas depois, um outro atraso e eu tentei repetir a mesma entrada discreta.

Dessa vez foi diferente, ele se virou em minha direção e falou com sua voz empostada de orador romano.

_Muito bem, hein dr. Sergio Lucas? Atrasado de novo!

E foi só, mas eu tremi na base como se tivesse levado um esporro homérico. Novamente ele voltou de imediato à aula, antes que eu me desse conta da sua incrível capacidade .

Dr Enéas dava aulas simultaneamente para duas duas turmas no Rio e outras duas em São Paulo, fora palestras no Brasil e no exterior.

Com cento e cinquenta alunos por turma, ele lidava, uma vez por semana, com, pelo menos, seiscentos alunos a cada período de dois ou três meses e emendava uma temporada na outra.

Por baixo, dois mil e quatrocentos alunos por ano e ele só tinha chegado perto de mim naqueles breves instantes do primeiro dia de aula. No entanto, ele não somente lembrava o meu nome, como sabia que eu estava me atrasando pela segunda vez.

Ele voltou ao tema da aula sem perder o fio da meada e sem nenhum outro tipo de censura. Que espécie de cabeça sobrenatural podia gravar as coisas com essa precisão? Como é possível consultar instantaneamente uma memória completamente diferente da que estava usando e retomar o assunto anterior sem nenhuma hesitação?

Eu nunca vi nada igual.

Ao final da aula, ele se livrou do enxame de alunos que sempre o cercava nessas horas e veio na minha direção. Quis saber o motivo do atraso, quando expliquei que tinha um estágio remunerado no hospital Souza Aguiar, ele me perdoou imediatamente.

O curso chegou ao fim com uma pequena celebração no auditório.

Dr. Enéas repetiu o gesto da chegada e se despediu individualmente de todos os que compareceram nesse dia. Tinha algo de pessoal para dizer para cada um de nós.

A partir daí, eu passei a receber regularmente uma correspondência me informando de todas as atividades acadêmicas do dr. Enéas. Ainda fui a dois eventos em que ele era o principal palestrante ou debatedor, invariavelmente me cumprimentava usando o meu nome.

Com o tempo a cardiologia saiu do meu foco de interesse e nunca mais o vi pessoalmente . Entretanto continuei recebendo sua correspondência enquanto ele viveu. Durante as eleições presidenciais recebia seu material de campanha. Eu nunca dei muita bola, achava que como político ele era um excelente médico e professor.

Nas primeiras eleições diretas após a redemocratização, ele se tornou um fenômeno de comunicação com escassos quinze segundos no horário eleitoral gratuito. O bordão “MEU NOME É ENÉAS” ficou nacionalmente conhecido, mas ele foi amplamente ridicularizado pela mídia especializada. Diziam que se ele tivesse mais tempo iria se atolar nas próprias ideias retrógradas.

Era um tempo em que quem não tivesse um discurso de esquerda era automaticamente desqualificado do debate público, vivíamos o começo da enorme ressaca da ditadura militar, que ainda perdura até os dias de hoje.

Eu nunca o menosprezei, mas também não o levei a sério, o que, hoje, lamento. Ele foi a primeira pessoa que decifrou publicamente a natureza de Lula e do PT. Nos programas de televisão sempre desvirtuavam o que ele dizia e os jornais impressos costumavam colocar palavras em sua boca ou reproduziam sua fala completamente fora de contexto.

Apesar de ter uma origem muito pobre no Acre e de ter uma atitude humilde perante a vida, Éneas sempre foi tratado pela grande mídia como um elitista empedernido. O principal motivo era sua intransigente defesa do estudo como meio de acensão social.

Nunca foi levado a sério pelos grandes atores da vida pública e morreu muito cedo. Sua voz gongórica faz falta. Hoje a sociedade está mais aberta às ideias meritocráticas e mais necessitada do que nunca de homens públicos moral e intelectualmente honestos, como ele indiscutivelmente foi. Não tenho dúvida que teria mais espaço.

Discordei e ainda discordo dele em inúmeros temas, mas sempre tive certeza de que ele dizia exatamente aquilo que pensava, sem fazer concessões para o capital financeiro, para o populismo e muito menos para o politicamente correto. De quantas pessoas públicas você pode dizer o mesmo?

Meus breves encontros com o dr. Enéas, me tornaram um discípulo eterno do professor Enéas, e, embora não tenha sido um seguidor de Enéas, o político, Enéas, o ser humano, se tornou um modelo para resto da minha vida.

Os muitos Enéas me proporcionaram uma experiência única.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

This Post Has One Comment

  1. Helder Cristian da Silva

    Dr. Sérgio, parabéns!

    Só tenho que elogia-lo, pelas palavras perfeitamente colocadas por você. Me arrepiei todo em lê-las.

    Toda homenagem é pouca ao Dr. Enéas.

    Obrigado por relatar um pouco da sua convivência com o mesmo.

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