Encontros 3. O professor mestrando

por Sergio Vellozo Lucas

Medicina Popular

No quarto período de medicina na Universidade Federal Fluminense (UFF), eu precisava completar alguns créditos em matérias optativas. Estava começando a levar a faculdade à sério e queria fazer o melhor curso possível.

Após avaliar todas as opções, decidi me inscrever num curso chamado “Medicina Popular”.

O professor era a maior atração. Era um cara alto, magro, cabeludo e barbudo, isso era completamente atípico para os padrões dos professores do início da década de 1980. O título da matéria era o mesmo de sua tese de mestrado, ele era relativamente jovem, tinha um entusiasmo contagiante, militava na Convergência Socialista e exerceu um enorme fascínio sobre mim, mais jovem ainda, sonhando me tornar um médico. Quem sabe um médico como ele?

A premissa da tese e do curso era relativamente simples. Boa parte das doenças endêmicas da região dispunham de tratamentos eficazes originados na cultura popular ancestral. A nós, alunos, cabia a tarefa de ir de casa em casa por bairros da periferia de Niterói, munidos de questionários formulados pelo futuro mestre, para investigar qual seria a conduta do povo na presença de determinados sintomas.

O mestre (já o chamávamos assim) tinha uma metodologia clara. Queria saber como as pessoas sem recursos, da periferia, tratavam suas doenças, não cabia a nós dizer se o tratamento era bom ou não. Ele não dava sua opinião diretamente, mas dava a entender que havia uma ciência por trás dos hábitos populares.

Era um trabalho cansativo, envolvia caminhar dezenas de quilômetros em bairros distantes como Cubango e Pendotiba, mas tinha um lado bem legal.

Tirando um ou outro mal-humorado que batia com a porta na cara da gente, as pessoas nos recebiam extremamente bem.

Saber responder o questionário do mestre era outra história.

Alguns chutavam como se tivessem que acertar a resposta de uma prova, outros achavam que tomar manga com leite podia matar, de vez em quando encontrava pessoas que acreditavam profundamente nas curas que propunham, difícil era saber qual a doença que curavam.

Aprendi sobre tratamentos para o lumbago, espinhela caída, congestão, arcos abertos, afrontas no peito e outras doenças que nunca ficaram muito claras pra mim.

Arnica, chá de carqueja, unções com óleos especiais, havia uma variedade de tratamentos que serviam para um mesmo sintoma e um monte de doenças diferentes que eram tratadas da mesma maneira.

Alguns tratamentos eram bem esquisitos, envolviam bichos mortos e até urina e excrementos humanos. Não existia consenso, cada um parecia ter sua própria conduta, quando alguém indicava um chá, o outro indicava arnica e um terceiro dizia que o que funcionava mesmo era uma massagem no peito com determinado unguento. Não faltava quem mandasse fazer xixi em cima, eu anotava tudo.

O mestre saberia dar um sentido às contradições da pesquisa, é claro que a informação científica não apareceria espontaneamente da minha observação direta.

O semestre foi passando e era possível observar a crescente frustração do nosso mestre com os resultados que obtínhamos nas entrevistas. Não havia um padrão visível nas respostas da população, pelo menos não havia o padrão que ele esperava.

Uma vez por semana tínhamos aula com ele, o trabalho de campo passou a ocupar todo o curso. A maioria dos alunos começou a desanimar com aquilo tudo, estudante de medicina quer estudar ciências biológicas e o trabalho do mestre parecia mais com ciências sociais.

Não era o meu caso na época, tudo que era alternativo me fascinava, de modo especial se houvesse um engajamento que desse um sentido político ao esforço empreendido, afinal ainda estávamos na Ditadura Militar. O mestre era especialista em gerar esse tipo de motivação.

No último dia da minha participação na pesquisa, eu estava indo para o posto de saúde de Pendotiba, aonde haveria uma reunião com todos os alunos escalados para aquele dia de trabalho. Eu deveria coordenar um pequeno grupo de cinco pessoas, mas justo naquela manhã importante, o meu chevetinho não quis pegar de jeito nenhum.

O jeito foi ir de ônibus e isso somou mais uns quarenta ou cinquenta minutos aos dez minutos de atraso que já estavam acumulados naquele dia.

Cheguei ao posto de saúde quando toda a equipe já tinha saído para o trabalho de campo, somente o mestre ainda estava lá, ele nunca ia pessoalmente e sempre tinha um lugar aonde ele esperava o retorno dos alunos.

Quando entrei na sua sala ele estava uma fera, nem tive tempo de dar a minha justificativa. Ele veio de dedo em riste na minha direção, seus gritos ecoaram por um bom tempo nos meus ouvidos.

_VOCÊ NÃO TEM VERGONHA DE CHEGAR UMA HORA DESSAS? ISSO É COISA DE VAGABUNDO SEM COMPROMISSO, EU NUNCA TRABALHEI COM GENTE TÃO IRRESPONSÁVEL E INCOMPETENTE ASSIM!

Eu estava esperando uma censura e não um esporro, nada tinha me preparado para uma agressividade daquelas. Achava que a minha justificativa era mais do que suficiente, ao longo do semestre eu tinha usado o chevetinho para tarefas coletivas da pesquisa, não foi a primeira vez que ele deu defeito. Até então o mestre era um modelo pra mim.

Eu fiquei chocado com a fúria dele, mas o pior ainda estava por vir. Eu não reagi aos gritos, então ele baixou o volume da voz, se aproximou do meu rosto olhando diretamente nos meus olhos e prosseguiu com um tom sarcástico, totalmente senhor da situação:

_ Você nunca vai se tornar um médico – vaticinou – Vai ser um daqueles que abandonam o curso no meio e vai viver da mesada do papai enquanto ele estiver vivo.

Eu tinha dezenove anos, mesmo que eu tivesse tentado, provavelmente não conseguiria responder nada, mas eu nem abri a boca. Ouvi calado, chocado, não tive presença de espírito nem pra dar as costas imediatamente e ir embora.

Pelo menos eu consegui ir embora antes dele parar de falar. Eu tive essa chance porque ele falava ininterruptamente em todas as situações, na época eu achava que era sinal de inteligência. Naquele dia, depois do esporro, ele emendou uma lição de moral interminável sobre deveres e compromissos, felizmente já não lembro mais de nem uma palavra.

Não sei se ele percebeu o estrago que fez, quando saí da letargia sua fala já estava mansa, mas eu não estava mais prestando atenção em nada. Fui embora em seguida sem me dirigir mais a ele.

Pouco me lembro da volta pra casa, certamente não fui fazer as últimas entrevistas da pesquisa dele. Era um curso optativo, não havia nota, apenas a frequência poderia reprovar e eu tinha ido em todas as aulas e trabalhos de campo, uma raridade no curso básico.

Não precisava mais me encontrar com ele, mesmo assim imaginei mil diálogos, nos quais eu devolvia a encarada no olho e dava respostas perfeitas para todas as ofensas que tinha sofrido. Confesso que também me vi dando uma porrada na cara dele. Na verdade vi e revi a porrada em diversos ângulos, diferentes cenários, com o requinte de imaginar o narigão dele torto ao fim do nosso encontro.

Nada disso aconteceu, é claro.

Depois que a raiva passou e eu desisti de mudar a anatomia da face do “mestre”, restou um desânimo. Por algum tempo eu acreditei que era mesmo o medíocre que ele tinha descrito, pior ainda, me sentia um covarde por não ter reagido às ofensas.

Custei a recobrar o nível de confiança que eu tinha antes de conhece-lo. Só à medida que fui sendo progressivamente absorvido pelo curso e pela carreira de médico, fui compreendendo que o medíocre era ele. Toda a fúria que ele despejou em cima de mim não passava de frustração acumulada com o resultado do seu trabalho, temperada com uma boa dose de prepotência e uma pitada de inveja.

Aprendi que os medíocres sempre transferem para os outros a responsabilidade pelos seus próprios fracassos.

O curso foi extinto e eu nunca mais ouvi falar dele até que nossos caminhos voltaram a se cruzar em uma mesa redonda na Associação Psiquiátrica Fluminense, mais de dez anos após aquele dia fatídico em Pendotiba.

Eu não só tinha me formado, como era diretor da Associação e já tinha uma boa clientela no meu primeiro consultório na rua Miguel de Frias, em Icaraí, Niterói. Ele ainda era um professor substituto, pingando de faculdade em faculdade, sem jamais atender um paciente. Já maduro, depois do fim da Ditadura, ele mantinha a mesma postura de jovem rebelde, embora os cabelos já estivessem ralos e grisalhos.

Nesse encontro eu o cumprimentei educadamente, mantive um sorriso na boca e notei que ele preferiu não sustentar o meu olhar. Continuei a conversar descontraidamente com as pessoas em volta e realmente, depois do frisson inicial, não dei muita importância à sua presença.

Não falei nada sobre aquele dia, nem precisava, o constrangimento dele era tão visível, que só podia ser explicado por algum tipo de sentimento de culpa. Pra mim isso foi um sinal claro de que pelo menos ele não era nenhum monstro. Monstros não sentem culpa nem ficam constrangidos, ele era somente um pobre coitado, que descontava suas frustrações em cima das pessoas sobre as quais detinha algum poder.

Sua profecia maligna causou um impacto suficiente para eu nunca mais esquecer sua breve passagem pela minha vida, mas hoje eu não lembro mais nem do seu nome. Fiquei curado quando a raiva foi substituída pela indiferença, ao escrever esse texto o sentimento é um misto de melancolia e piedade.

Como diz Nietzche, aquilo que não me mata, só me fortalece.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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