Encontros 2. Herói do mundo real

por Sergio Vellozo Lucas

Motocicleta

O trajeto entre Niterói e Jacarepaguá é cheio de armadilhas. Trânsito pesado, morros, curvas, muitas curvas, ponte de 13 quilômetros, um desafio constante. De motocicleta é mais interessante, eu passava por ali pelo menos duas vezes por semana e tinha aprendido a curtir a viagem.

Eu andava de bota, calça jeans, luva, casaco acolchoado de couro, além do capacete é claro.

O meu único acidente teve um motivo inusitado.

Aconteceu em um dia claro de outono, a temperatura permitia usar o casaco de couro sem ficar todo suado. Eu não estava atrasado, sem pressa tinha aproveitado cada quilômetro da travessia da ponte Rio-Niterói.

Quando passo de carro vejo a linda paisagem pela janela como se fosse um quadro na moldura, de moto eu me torno parte da paisagem. A frase não é minha, é de Robert Pirsig em seu clássico livro ” O Zen Budismo e a Arte de Manutenção de Motocicletas.” Eu li esse livro logo que comprei minha primeira moto, ainda hoje uso os conceitos de Robert Pirsig.

Depois de dezenas de quilômetros de ar marinho e caminho livre, o primeiro sinal fechado que parei foi próximo à rodoviária, antes de ir em direção à UERJ para pegar a estrada Grajaú-Jacarepaguá. Região de trânsito muito pesado.

Ali mesmo um inseto posou na gola do meu casaco, nem liguei, o sinal abriu e o vento trataria de levar o invasor embora, de volta para o seu exótico mundo dos insetos urbanos.

Quando entrei na Praça da Bandeira senti ele subindo no meu pescoço. Que espécie de inseto mutante tinha se agarrado tão firme na gola do meu casaco num ambiente hostil daqueles ?

Agora ele estava subindo em direção ao meu rosto e eu tinha que manter as duas mãos presas ao guidom da motocicleta porque na Praça da Bandeira tem uma confluência de cinco ou seis pistas , logo antes de chegar ao Maracanã. Os carros que vem da direita querem ir para a esquerda e vice-versa. Não da pra vacilar ali.

O bicho subiu pelo meu queixo, cruzou a minha boca como se estivesse fazendo turismo no meu rosto, enquanto eu estava agoniado tentando ir para a calçada ou acostamento que praticamente não existem naquele local.

Não era possível simplesmente parar a moto no meio da pista com tantos carros vindo de trás, várias pistas à direita e outros tantas à esquerda.

Resisti um pouco ao comichão, enquanto tentava encontrar um lugar para parar a moto. Tentei soprar o bicho pra longe, mas a viseira do capacete o mantinha colado ao meu rosto. Abri a viseira e de repente o inseto me ferroou no suco naso-labial, em algum lugar entre o meu lábio superior e a base do nariz.

O lugar é extremamente sensível, a dor foi grande, mas o pior mesmo foram o imediato reflexo de espirrar e o lacrimejamento intenso que se seguiu.

A partir daí não vi mais nada, mas me mantive alerta e consciente.

Bati no carro da frente só com a mão direita (a do acelerador e do freio de mão) firme no guidom, a outra mão estava tentando capturar o inseto kamikaze, logo depois da picada.

Com o impacto da batida as minhas pernas voaram pra cima enquanto a minha mão segurava com o guidom com toda a força que eu tinha. O resultado foi uma cambalhota de costas cuja altitude eu posso somente imaginar, os meus olhos continuavam sem enxergar nada. A sensação é que eu estava dando um triplo mortal carpado.

Bati no chão simultaneamente com a parte de trás do capacete, o ombro e com a escápula direta. O primeiro impacto foi distribuído e eu continuei rolando pela pista por mais uma dezena de metros.

Dei sorte de não entrar embaixo de nenhum carro que ia à frente ou ao meu lado, mas ainda tinha os carros que vinham atrás.

Os sons do asfalto estavam dentro dos meus ouvidos. Buzinas, roncos de carro e principalmente o ruído de pneus freando se aproximando assustadoramente.

O encontro

Quando tirei o capacete e esfreguei os olhos voltei a enxergar, ainda meio borrado, mas foi o bastante para ver uma cena incrível.

Um táxi amarelinho estava parado transversalmente na pista entre eu e o fluxo contínuo de carros. Os motoristas desviavam do táxi e continuavam passando à minha direita e à minha esquerda, como um rio que corre pelos dois lados de uma pedra no meio do seu leito. Imediatamente o fluxo ficou mais lento.

O motorista do taxi me ajudou a levantar e depois a buscar a minha moto que ainda estava no meio da pista. Ele parava os carros como se fosse um guarda de trânsito. Meu único ferimento digno de registro foi uma fratura no polegar da mão direita, a que tinha ficado segurando o guidom.

Eu estava um pouco atordoado e ele fez questão de me levar ao hospital universitário Pedro Ernesto a poucos quilômetros dali. Ele assumiu para si a responsabilidade pelo meu atendimento, só foi embora quando eu já tinha radiografado tudo, mas não sem antes protestar quando eu decidi continuar de moto até a clínica em Jacarepaguá. Àquelas horas eu já estava muito atrasado para o plantão.

Ele provavelmente salvou a minha vida. Estava no carro que vinha imediatamente atrás de mim, viu quando eu bati desgovernado no carro da frente e voei para longe da moto. Ele me seguiu na diagonal da pista em que vinha e parou intencionalmente seu táxi numa posição que protegia o meu corpo dos carros que vinham de trás. Se simplesmente tivesse seguido reto e cuidado da sua vida é quase certo que alguém teria me atropelado.

O nome dele era Luis Carlos, eu o vi outras vezes e tive chance de agradecer o seu heroísmo. Ele colocou a si mesmo e ao carro que era o seu ganha-pão em risco, sem hesitar. Era um sujeito simples e corajoso, com um respeito admirável pela vida humana.

Dentro do capacete eu encontrei os restos mortais de uma abelha esmagada, que raio de abelha miserável é essa que vive entre a rodoviária do Rio e a Praça da Bandeira? O meu lábio ficou da cor e do tamanho de um tomate.

A viagem do hospital Pedro Ernesto até Jacarepaguá foi com braço direito engessado até o cotovelo, em cima de uma motocicleta toda empenada. Não recomendo pra ninguém.

Luis Carlos ligou pra mim à tarde para saber como eu estava. Não havia celulares naquela época, a sua natureza o levava a socorrer todas as pessoas que se acidentavam em seu caminho diário. Eu não fui o primeiro a ser ajudado por ele, certamente não fui o último.

Foi esse acidente bizarro que me permitiu conhecer o Luis Carlos, uma dessas pessoas que precisou de muito pouco tempo para marcar minha vida para sempre. Valeu a pena, essas pessoas são raras, encontra-las renova a esperança no futuro da espécie humana.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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