Em terra de cego quem tem um olho é esquisito

por Sergio Vellozo Lucas

Em terra de cego…

Em terra de cego quem tem um olho é rei … nem sempre.
Em terra de cego quem tem um olho é caolho, na voz da concorrência.
Em terra de cego que tem um olho não enxerga, quando é igual a todos.
Em terra de cego quem tem um olho é subversivo, se transmite o que enxerga.
Em terra de cego quem tem um olho sofre, se tiver consciência.
Em terra de cego quem tem um olho é solitário… sempre.

Enxergar mais do que os outros, mais do que uma vantagem comparativa é um fardo se for encarado com ética.

Quem enxerga mais tem mais responsabilidade sobre aquilo que vê. Quando vemos um crime antes dos outros a omissão nos torna cúmplices e a consciência nos deixa culpados. Muitas vezes é mais cômodo não enxergar.

Historicamente as pessoas que enxergam adiante do seu tempo são discriminadas pelos seus contemporâneos quando tentam dividir o fruto da sua visão especial do mundo. Sócrates, Galileu, Spinoza, Schopenhauer, Nietzsche, todos foram perseguidos de alguma forma em seu próprio tempo, antes de alcançarem o reconhecimento post mortem.

Schopenhauer teorizou sobre esse tema e concluiu que a solidão é o destino de todas as mentes mais capazes. Quanto menos capaz, menos o sujeito enxerga as complexidades do mundo.

Desde que o povo escolheu Barrabás no lugar de Jesus, nunca mais parou de escolher as pessoas que mais se assemelham a si mesmo quando têm a oportunidade. Esse é um dos motivos da popularidade (felizmente decadente) de Lula.

Está na moda dizer que fulano ou beltrano não me representa, mas infelizmente representam sim. Em nosso modelo de representatividade escolhemos pessoas que se assemelham conosco o suficiente para conseguirem parecer que são exatamente aquilo que nós desejamos que elas sejam. E nós desejamos que sejam parecidos com o que imaginamos ser o melhor de nós mesmos.

Mas no fundo temos muitas restrições a quem seja de fato melhor. Individualmente até admiramos quem demonstra ter mais capacidade, mas coletivamente tendemos a rejeitar porque tememos tudo que seja diferente de nós mesmos.

Ao observar uma pessoa no alto de um prédio ameaçando se suicidar, ninguém individualmente pediria que ela se jogue, pelo contrário, se possível tentaria demover o sujeito dessa trágica opção. Mas uma multidão invariavelmente pede que ele pule e ainda acha graça. Depois cada um joga a culpa em cima de todos os outros, e vai embora pra casa feliz da vida, exatamente como numa eleição.

O discurso exacerbado de tolerância com as diferenças reflete exatamente o oposto. No fundo não suportamos aqueles que excedem os nossos limites. As mais bonitas, os mais inteligentes ou os mais fortes. E rejeitamos os que não atingem nossos padrões: os mais feios, as mais burras ou os mais fracos.

O discurso politicamente correto serve para expiar o sentimento de culpa dessas impressões inconfessáveis.

Pelo menos, bem ou mal, por enquanto ainda podemos defender nossas opiniões, fazer nossas escolhas, cometer nossos erros e tentar corrigi-los, porque num mundo uniforme desejado pelos totalitários que combatem nossa liberdade enquanto fingem defende-la, o ditado acabaria assim:

Em terra de rei quem tem um olho e quer continuar vivo, deve alegar que é cego.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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