Desafios da agenda liberal

A evolução da crise brasileira e a proximidade das eleições presidenciais estão consagrando a agenda liberal como ponto de convergência dos democratas que rejeitam o populismo e a demagogia, principais estratégias petistas. A reforma do Estado em todas suas dimensões, a centralidade do compromisso com o equilíbrio fiscal, a eliminação do aparelhamento político da máquina pública já estão nos discursos dos candidatos que não possuem interesse no espólio eleitoral do lulopetismo.

A vitória nas urnas do projeto reformista é condição necessária mas não suficiente para viabilizar sua implantação. A agenda liberal tem como questão central a reengenharia do Estado brasileiro afim de libertá-lo de sua condição de capturado pelas relações de privilégios de estamentos e corporações. Adotá-la significa compreender que sem um Estado capaz de fazer políticas públicas voltadas para a sociedade em seu conjunto será impossível superar a iniquidade social e o atraso. Infelizmente a ampla convergência acaba quando saímos da formulação geral e vamos para a implantação na prática. Reformar a CLT , a previdência, o sistema tributário, privatizar a Eletrobrás e obras de infraestrutura, acabar com a estabilidade de funcionários públicos, reduzir custos e salários na máquina do Estado, extinguir subsídios fiscais…

Quando o deputado Bruno Araújo, do PSDB-PE, renunciou ao Ministério das Cidades antecipando a saída do seu partido da base do governo Michel Temer, abrindo assim espaço para uma indicação ministerial do “centrão”, a bolsa de valores reagiu com otimismo, e a cotação das ações subiu. Os analistas do mercado financeiro calcularam que teria aumentado a chance de Temer conseguir a aprovação da reforma da previdência. Em resumo, piorar a qualidade da equipe ministerial com mais fisiologismo seria um preço que valeria a pena ser pago afim de aprovar a reforma considerada crucial para o equilíbrio fiscal do país. E a politica urbana? Habitação, saneamento, mobilidade urbana, favelas… Não são importantes?

A primeira conclusão é que a agenda liberal não é propriedade dos analistas da bolsa de valores. Não interessa só ao mercado financeiro como os populistas ainda teimam afirmar. Trata-se hoje da essência do interesse público. A segunda conclusão é que não existe atalho para a implantação da agenda liberal por fora da boa politica, da negociação, do convencimento da opinião pública e com ela da construção de uma base política sólida a favor da racionalidade e da ética no trato das coisas a serem feitas pelo estado em nome do interesse geral da sociedade.

É preciso ganhar politicamente a sociedade para o caminho das reformas. Elas não passarão de outra maneira. O “mercado” precisa se convencer de que é preciso reunir força politica para conseguirmos implantar reformas, compreender que quase sempre é preciso negociar regimes de transição e compensações. Mais que isso, é preciso não se iludir com a possibilidade de reformar o Estado na marra, tripudiando e esmagando os interesses contrariados. O Plano Cruzado tentou esse caminho satanizando o empresariado e criminalizando alta dos preços e não funcionou a não ser para a vitória do governo Sarney nas eleições seguintes que inventaram o “estelionato eleitoral”.

Os ameaçados pela agenda liberal, possíveis perdedores de privilégios, sabem se organizar e se defender. Este enfrentamento inevitável também não pode ser feito com apoio “comprado” na base de tratamento favorecido e distribuição de cargos e verbas. A base de sustentação de um futuro governo reformista terá que ser construída por forças políticas que apostem no sucesso da implantação agenda liberal. Tropas mercenárias não lutam por reformas.

O economista Alan S. Blinder , da Universidade de Princeton, que foi da primeira equipe econômica de Bill Clinton, argumenta em seu livro Advice and Dissent: Why America suffers when economics and politics colide, que é fundamental encurtar o abismo cultural que existe entre a boa política e a boa economia. Diz ele que só assim será possível implantar políticas públicas que sejam ao mesmo tempo “racionalmente obstinadas” e “simpáticas”. Se nos Estados Unidos, com sua longa história de democracia e liberalismo, eles se preocupam com a irracionalidade econômica dos políticos e a falta de sensibilidade política dos economistas, imaginem o tamanho desse desafio no Brasil de hoje…

A crise de confiança que caracteriza a crise brasileira atinge tanto o mercado financeiro quanto a opinião pública e o eleitorado. Todos acompanham com preocupação o processo eleitoral e o sobe e desce das pesquisas de intenção de voto. Em 2002, quando o PT chegou ao poder disfarçado com a “Carta aos brasileiros” e entregou a gestão da economia a Palocci e Meirelles, ouviu-se muito “no mercado” que a vitória de José Serra teria sido pior. Estou convicto de que não!

O populismo disfarçado arrastou o Brasil para uma crise profunda e nem atalhos autoritários nem governabilidade cooptada serão capazes de nos salvar. Os indignados com a política brasileira que não desistiram do Brasil, precisam atravessar o rubicão da desilusão e da paralisia para participar ativamente do processo eleitoral reforçando o campo democrático e reformista.

Reconheço que não é fácil, mas penso ser esse o único caminho verdadeiro.

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