Cultura, antropologia e a magreza das mulheres

por Sergio Vellozo Lucas

A beleza das mulheres

Desde os mais remotos desenhos rupestres que conhecemos, o homem tenta capturar em desenhos a beleza das mulheres. E desde sempre elas são representadas cheia de curvas, mais ou menos gordinhas, conforme a preferência da época. Das estátuas gregas aos quadros impressionistas de Renoir ou Manet, passando pela maravilhosa Vênus renascentista de Boticcelli, nunca conseguimos ver os ossos das musas retratadas ao longo da evolução humana.

Toda essa história começou a mudar a partir da segunda metade do século XX, quando a alta costura começou a formar opinião sobre como deveria ser o corpo feminino. Os meios de comunicação se multiplicavam, no cinema Audrey Hepburn, a eterna bonequinha de luxo, vestia exclusivamente roupas de Givenchy em todos seus filmes e se tornou um ícone da moda.

Com todo o respeito e admiração por Audrey Hepburn, temos que reconhecer que mesmo em seu auge, no final dos anos 50 e início dos anos 60, ela estava longe de ser considerada um símbolo sexual. Sem dificuldades lembro de Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Rita Hayworth e mais uma lista de mulheres mais encorpadas que tinham melhores contratos e eram muito mais admiradas pelos homens contemporâneos de Audrey Hepburn.

A partir de Audrey esse tipo de merchandising foi ficando cada dia mais comum, hoje em dia todas as grandes estrelas são modelos desse ou daquele costureiro famoso.

A magreza das mulheres

Esses senhores da alta costura nunca estiveram interessados em mulheres de verdade, queriam tão somente mulheres-cabide cujos corpos retos não chamassem pra si a atenção durante um desfile de moda. As magras foram ganhando espaço.

Nas décadas seguintes a mídia começou a adotar a magreza como critério de beleza e de status. Nos anos 60 teve a Twiggy, modelo inglesa meio andrógina, ainda caricata, mas nos anos 70 as Panteras de Farrah Fawcett já eram sex-simbol ossudas, embora ainda estivessem longe de ser unanimidade.

Daí para as modelos anoréxicas dos dias atuais foi um pulo. Depois de várias gerações de propaganda massiva associando magreza e beleza já se encontra na juventude de hoje rapazes que parecem genuinamente preferir as ossudas. Pode ser.

Segundo os biólogos evolucionistas o desejo sexual é a forma que a natureza encontrou para tornar a transmissão dos nossos genes uma atividade atraente, a beleza é uma mensagem subliminar de fertilidade. As características que compõem os primeiros conceitos de beleza feminina estão ligadas à reprodução: um quadril largo facilitaria o parto, a cintura mais fina permitiria ajudar no trabalho e um seio farto significaria garantia de boa amamentação para a prole que viria.

É claro que cada época teve os seus próprios modismos, proibições, tabus, clima e tudo foi influenciando o padrão ideal de beleza feminina. As características originais sofreram algumas adaptações, mais roupa, menos roupa, cinturas mais altas ou mais baixas, cabelos, maquiagem inúmeras variáveis foram introduzidas sem nunca modificar radicalmente as formas originais que despertaram o tesão dos nossos ancestrais.

A preferência pelas magras é de fato uma novidade no comportamento humano.

Pessoalmente acho que isso não vai durar muito mais, em algum momento aquele homenzinho de Neanderthal que mora nos cantos remotos do nosso inconsciente vai despertar sedento por mais carnes e curvas.

Não existe padrão estético que fique acima da natureza humana, pode demorar um pouco, mas nossas características antropológicas hão de prevalecer sobre os caprichos culturais da nossa era.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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