Construindo a si mesmo

por Sergio Vellozo Lucas

A construção do ser

Terêncio Publio nasceu no século II A.C. no norte da África e ainda criança foi feito escravo por um senador romano. Como não era incomum naqueles dias o senador se encantou com o jovem rapaz e deu a ele o seu próprio nome, além de uma requintada educação.

Terêncio fez bom uso dos dois. Quando adulto, já liberto, se tornou o maior escritor de sua época, reconhecido entre os grandes dignitários de Roma. Conheceu a escravidão e o sucesso, foi desprezado e bajulado, a sua história dá mais profundidade ao seu conhecido axioma:

Eu sou um homem, logo tudo o que é humano não me é estranho.

Independente de origem ou instrução, nós, seres humanos sentimos as mesmas dores e vivemos os mesmos medos, somos mais parecidos entre nós do que gostaríamos de acreditar.

Existem somente sete notas musicais e compomos com elas todas as melodias que alegram e irritam os nossos ouvidos. São somente três cores elementares, combinadas elas formam todo espectro do arco-íris. Temos quatro percepções de paladar (*) na língua e reconhecemos toda a diversidade dos sabores da gastronomia.

Com os cento e dezoito elementos da tabela periódica todo o universo foi construído. Olha que muitos deles nem ocorrem naturalmente em nosso planeta, nem precisa, a terra já é rica o bastante sem eles.

As características humanas são igualmente limitadas, o que confere nosso caráter tão individual como uma impressão digital é o quanto e o como desenvolvemos de cada uma dessas características universais. Temos dentro da gente semelhanças com o os gênios filantropos e com os maníacos assassinos. Essa diversidade interna permite identificarmos o bem e o mal nas pessoas, só somos capazes de reconhecer aquilo que previamente conhecemos.

Construindo a si mesmo

Na infância somos tomados por impulsos formados pelas características dominantes de nossa personalidade. As contingências da vida de cada um limitam e modelam nossa natureza, nos direcionando para determinados grupos e determinados comportamentos específicos em nosso processo de amadurecimento.

Quando nos tornamos adultos, temos a possibilidade de escolher entre os diferentes aspectos humanos, quais queremos desenvolver no restante da nossa caminhada.

Claro que não posso resolver me tornar o solista de uma orquestra sinfônica sem nunca ter aprendido um instrumento aos cinquenta anos. Algumas habilidades não estão à nossa disposição com a mesma abundância que existe em outros, por mais que eu queira jogar bola eu não vou ser o Neymar se isso não estiver no meu DNA.

Não posso interferir na minha herança genética, mas posso modelar aquilo que já possuo. Posso aprender um instrumento, me tornar mais culto ou ficar mais forte. Posso decidir aprimorar algumas qualidades que já tenho ou desenvolver outras desconhecidas, posso ser, em grande medida o construtor de mim mesmo.

Quais as cores ou sabores humanos eu devo desenvolver para evoluir como uma pessoa melhor?

Cada um tem que descobrir a própria resposta, o importante é ter consciência de que estamos sempre mudando, se não mudarmos para melhor acabaremos passivamente mudando para pior.

Mesmo quando estamos satisfeitos temos que seguir mudando para continuarmos assim. Algo que me realizava e me dava imenso prazer aos trinta anos já não satisfaz na mesma medida aos cinquenta. Mas aquele prazer de realizar que eu sentia ainda habita a minha mente e eu sou capaz de evoca-lo fazendo alguma outra coisa. A gente muda até pra se sentir o mesmo.

A partir dos quarenta eu recomendo substituir gradativamente os prazeres sensoriais pelos prazeres intelectuais, os prazeres instantâneos pelos prazeres elaborados, mas sem nunca abandonar os vínculos juvenis que ainda trazem alegria.

Não é muito fácil, de vez em quando um chocolate ainda é mais gostoso do que um livro e isso não tem nada demais. Mas pelo menos agora o chocolate é o meio amargo.

(*) Alguns pesquisadores se referem a um quinto, seria a percepção de peptídeos, não faz muita diferença aqui.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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