Classificações, prazer e dor

por Sergio Vellozo Lucas

Os rótulos

Pode-se rotular as pessoas de acordo com quaisquer critérios que se escolha, separar os indivíduos em ricos e pobres, fortes e fracos, bons e maus, negros, brancos, amarelos e vermelhos, uma infinidade de divisões tão ampla quanto a imaginação humana e o seu vocabulário.

As classificações podem ser usadas de forma preconceituosa e geradora de conflitos, mas são úteis quando bem utilizadas, a ciência evolui usando classificações desde antes de Aristoteles sistematizar um método científico no seu organon.

Ultimamente eu tenho achado útil classificar as pessoas entre um primeiro grupo que olha para o mundo com a intenção de possuir e um segundo grupo que tenta compreender o significado das coisas que enxerga à sua volta.

Possuir X Compreender

Ambos os grupos vão, cada qual ao seu modo, usufruir aquilo que vêem.

As pessoas do primeiro grupo também querem entender o que vêem, mas nesse caso a compreensão é somente um instrumento para possuir mais. Para o segundo grupo o gozo maior está na compreensão que se torna um fim em si mesmo.

Usufruto predatório X usufruto construtivo

A vida entre as pessoas do primeiro grupo é de sobressaltos ou monotonia, sem meio termo. A sensação de prazer ancorada na posse se alterna com o medo de que venha terminar a bonança ou com o fastio provocado pelo prazer repetido e estéril. Honra sem mérito.

Imagine o Collor passeando com sua Lamborghini de três milhões e meio, supostamente adquirida com dinheiro de propina da Petrobras, mas tendo que deixar dois seguranças vigiando o carro sempre que saia pra que não o abordem. Gozo restrito e cheio de medo.

Nada vai saciar a sede de possuir, não bastou a Ferrari ou o Porsche, ele tinha que ter mais uma Lamborghini, um Rolls Royce Phanton e mesmo assim sempre vai continuar insatisfeito. O fastio esgota o gozo e leva o sujeito a buscar cada vez mais do mesmo, como um drogado que não sente mais prazer com a sua droga, mas vai aumentando a dose indefinidamente até o inevitável fim.

O segundo grupo também encontra o prazer na conquista, mas o verdadeiro prêmio é o conhecimento adquirido no processo. Ao fim de cada conquista o sujeito fica mais forte ao contrário daqueles do primeiro grupo que se sentem vazios após a experiência de consumo.

Adquirir mais e mais conhecimento também pode ser somente um instrumento de poder, mas nesse caso o foco se encontra no exercício do poder e não no saber adquirido, as pessoas com essa característica fazem parte de uma subespécie do primeiro grupo.

O conhecimento pode levar à erudição egoísta ou à sabedoria, pode ser um meio ou ser um fim, pode trazer angústia ou paz, embora sempre traga dor.

Sim, o saber inevitavelmente traz dor e responsabilidade embutidos no prazer da conquista.

Imagine ouvir diariamente um ruído não identificado vindo do apartamento ao lado. Pode surgir uma curiosidade banal, mas ela logo desaparece com as atividades do dia. Um belo dia você fica sabendo que aquele ruído é na verdade o choro sufocado de uma criança molestada. Na próxima vez que ouvir o “ruído” você se sentirá compelido à tomar uma atitude, o resto do dia jamais será o mesmo.

Ou toma uma providência ou vai se remoer de culpa, esse é o tipo de responsabilidade e dor trazidas pelo conhecimento.

O sofrimento do primeiro grupo se localiza em não possuir aquilo que deseja ou no medo de perder aquilo que possui. O segundo grupo sofre por não compreender tudo o que vê ou por não conseguir modificar tudo o que compreende.

Ao contrário do que sugere o maniqueísmo que toda as classificações tendem a gerar, existem caminhos comuns e soluções existenciais para ambos os grupos aqui retratados em seus extremos. Nem todo desejo de possuir é perverso como o de Collor, tampouco nem toda sede de conhecimento é saudável.

Quando olhamos para o mundo ficamos divididos entre conhecer e possuir e temos dentro da gente um pouco de ambos, mas cada um tem o sua própria mistura e o poder de alterar o seu destino.

Como diz o poeta espanhol Antonio Machado em seu verso mais conhecido: “Caminhante, não ha caminho, o caminho se faz ao andar.”

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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