Caixa d’água na cabeça…

por Luiz Paulo Vellozo Lucas

A água

A música Lata D’água é muito conhecida. Seu refrão diz assim:

Lata d’água na cabeça
Lá vai Maria
Lá vai Maria
Sobe o morro e não se cansa
Pela mão leva a criança
Lá vai Maria

Essa música, de 1952, de autoria de Joaquim Antônio Candeias Júnior, retrata algo que já foi, em muito, vencido pela sociedade brasileira. Ao menos na maioria de nossas cidades. Nosso problema hoje não são as latas d’água mas as caixas d’água.

Vale chamar a atenção para o fato de o Brasil ser o único país no mundo que usa o sistema de caixas d’água. Nos países mais organizados a distribuição de água é feita por um sistema de fluxo constante. É assim, por exemplo, que fazem em Portugal, país que tanto gostamos de ironizar com piadas.

O sistema de distribuição de água que usamos no Brasil hoje, baseado em distribuição por bombas e acúmulo de estoques em caixas d’água é ineficiente em vários sentidos, e caro.

Do ponto de vista sanitário há uma perda enorme. As companhias captam a água, tratam-na, inclusive cloretando e fluoretando, e depois mandam essa água para ser acumulada numa caixa d’água que pode ter rato morto, mosquito da dengue, baratas e outros insetos apodrecendo e muitas coisas mais. Ineficiência sanitária. Trato para depois “destratar”.

A distribuição por bombas não tem pressão constante. As companhias mandam água por algumas horas, com pressão forçada, depois desligam as máquinas. Isso submete toda a rede de distribuição a uma presão enorme. Essa sistema causa uma série de problemas: submete a rede a uma pressão acima do que ela pode receber, resseca os encanamentos, provoca rompimentos dos canos. Se entra ar nos canos, além dos vazamentos, podemos, junto com as bactérias que entram, provocar a produção de gás metano, ocasionando o estouro dos canos.

Além disso, com as caixas d’água não sabemos imediatamente se o serviço de abastecimento foi interrompido. Isso contribui para que vazamentos perdurem por grandes períodos de tempo.

Em Portugal o tempo de qualquer conserto de vazamento de água na rede de distribuição é menor que duas horas. Lá eles têm uma perda de água da ordem de 12%. No Brasil são comuns perdas de 40%, 50%, as vezes até de 70%.

Como apontei em artigo escrito muito tempo atrás, as caixas d’água, tal como os quebra-molas, são símbolo da falta de confiança do cidadão na eficiência dos serviços públicos. Não podemos nos conformar com a necessidade de sua existência. Tal como acabamos com a necessidade das latas d’água, assim podemos fazer com as caixas d’água.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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