Buscando o sentido da vida

por Sergio Vellozo Lucas

O corpo e a mente

A primeira preocupação do homem é a sobrevivência, se o almoço não está garantido nenhuma outra preocupação se instala em nossas cabeças. As exigências do corpo são mais urgentes do que as da mente, não há nenhum ser humano preocupado com questões filosóficas quando está com diarreia e não tem nenhum banheiro por perto.
Uma vez resolvidas as demandas fisiológicas e de subsistência, emergem as questões existenciais.

As pessoas saudáveis emocionalmente precisam sentir que a vida é mais importante do que somente comer, dormir e procriar. A maioria de nós acredita que a vida tem algum tipo de sentido, mais ou menos oculto, que preenche a nossa necessidade de transcender a banalidade do cotidiano.

A fé metafísica é o atalho mais curto para dar uma resposta a essa questão, mas não é o único caminho.

Buscando o sentido da vida.

Cazuza disse que queria uma ideologia pra viver, crenças não religiosas também dão um propósito à vida terrena, as religiões são mais ambiciosas e oferecem a perspectiva de uma vida eterna além de dar um sentido à vida terrena, mas ambas as crenças funcionam do mesmo modo do ponto de vista emocional: você se sente parte de um grupo de pessoas que acredita estar lutando por um mundo melhor e, se tudo correr bem, sua vida adquire um significado superior.

Causas humanitárias, ecológicas ou quaisquer missões que o indivíduo abrace verdadeiramente também podem dar ao sujeito a sensação de fazer parte de algo maior, que justifica a sua presença nesse mundo. Algumas mulheres julgam que criar os filhos é a sua missão transcendental.

Infelizmente nada dura pra sempre, as circunstâncias vão se modificando ao longo do tempo e crenças antigas nem sempre suprem as necessidades das novas demandas.

Mulheres arrependidas de terem aberto mão de sua individualidade pra viver a vida dos filhos são figurinhas fáceis nos consultórios psiquiátricos, especialmente quando os filhos não aturam mais a ingerência constante e tomam as rédeas da própria vida assim que são capazes.

Comunistas arrependidos existem aos milhares por aí, talvez devessem existir ainda mais. “Se um homem não foi socialista aos vinte anos não tem coração, se continua socialista aos quarenta é porque não tem cabeça”, já dizia George Clemenceau, médico, político e pensador francês que viveu do final do século XIX ao início do século XX.

A religião e as causas humanitárias dificilmente se sustentam por toda a vida. Basta ver como as pessoas trocam de denominações e de causas, não raramente adotando doutrinas antagônicas àquelas que inicialmente seguiam.

É claro que existem pessoas que seguem fieis a um objetivo por toda a vida. Essas pessoas são fiéis aos seus talentos mais do que a suas escolhas e descobriram como usar um talento pessoal para lidar com as questões que o mundo propõe. Esses vão se dar bem de qualquer jeito, mantendo a mesma crença ou não. A resposta está mais dentro de cada um deles do que nas crenças que eventualmente tenham.

Não importa o que você faça pra viver ou pra passar o tempo, o grande compromisso da vida é conseguir extrair de si mesmo o melhor de seu potencial. Se sou um músico e não estou tocando, um poeta e não estou escrevendo, ou um atleta e não estou competindo, existe alguma coisa dentro de mim que está me amargurando e me deixando frustrado. Quanto maior o talento, maior o compromisso com o desempenho.

Nem sempre o talento coincide com a paixão. É uma pena, minha vida seria uma maravilha se eu pudesse ter sido sido campeão da NBA ou jogado na seleção brasileira de futebol. Ganhar o PipeMasters também servia, mas o esporte era mais paixão do que destino no meu caso.

Recentemente li um excelente artigo em que o autor relatava como tinha se realizado com um trabalho de analista de investimentos que inicialmente detestava. Amava ser fotógrafo, tentou a carreira profissionalmente e ainda faz isso como amador, mas descobriu que era muito bom em outra coisa e só assim encontrou o seu caminho.

No fundo nós estamos condenados a usar o melhor de nossa capacidade. Se você é muito inteligente e não está usando o seu intelecto a seu favor, sua cabeça está passivamente trabalhando contra você, afinal nós nunca paramos de pensar.

_ O que você está pensando meu bem?

_ Nada.

Essa resposta é invariavelmente uma mentira.

“A mente humana é o mais poderoso instrumento que existe na face da terra. Se você sabe como usa-la a seu favor terá o melhor empregado do mundo, se fica ociosa torna-se o pior patrão”. Essa frase é de David Foster Wallace, genial escritor americano contemporâneo, eu adoraria tê-la escrito, mas não queria estar no lugar do David, um sujeito brilhante, uns dois anos ano mais novo que eu. Ele se suicidou com um tiro na cabeça há cerca de dois anos.

Quanto maior o intelecto, mais complexas as tramas que a mente é capaz de elaborar, inclusive contra si mesmo. É o equilíbrio oferecido pela natureza, algum nível de sofrimento mental é o preço que se paga por uma mente muito inquisitiva, em compensação os idiotas estão naturalmente protegidos das depressões. A sobrevivência é um propósito de vida amplamente satisfatório, se essa função ocupa a maior parte do seu tempo.

As mentes mais brilhantes sofrem para responder algumas questões que os mais simples respondem naturalmente, sem precisar sequer perguntar, mas uma vez feita a pergunta, a resposta se torna extremamente complexa.

Ao contrario das crenças e doutrinas acredito que não exista um mesmo caminho para todas as pessoas, mesmo quando caminhamos em conjunto, só andamos com nossas próprias pernas e no nosso próprio ritmo.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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