As duas urgências da crise dos refugiados

por Sergio Vellozo Lucas

Refugiados na Europa.

A era das informações instantâneas está permitindo acompanhar a crise dos refugiados na Europa de uma forma como nunca acompanhamos uma tragédia dessa magnitude. Até então elas eram restritas a filmes amarelados da Segunda Grande Guerra e aos livros de história.

Não há como não se preocupar com as cenas dos navios superlotados à deriva no Mediterrâneo, não se chocar com a visão de dezenas de pessoas asfixiadas em caminhões abandonados por espertos que sempre encontram uma forma de lucrar com o drama alheio.

Não há como não se comover com a poesia trágica contida na imagem do menino Aylan, inerte na longínqua praia turca que de repente, num passe de mágica, se tornou nossa vizinha.

As emoções modelam as opiniões da maioria que pede providências aos governos europeus. Os engajados encaixam a tragédia ao seu modelo de mundo e não poupam críticas ao capitalismo insensível que permite tantas mortes à sua porta e ainda constrói muros ao invés de abrigos para receber os migrantes.

Que os europeus não estão preparados para uma migração dessas dimensões é evidente, que muitos de seu governantes estão pensando somente na própria sobrevivência também é verdade, mas somente os países que cultivam os valores democráticos ocidentais permitem que se discuta tão abertamente suas falhas dentro da sua área de influência.

A origem das migrações está nos regimes teocráticos muçulmanos que não só não admitem críticas como não admitem nem a existência de nenhuma crença diferente da sua própria em seus territórios.

Países muçulmanos ricos como a Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes financiam a expansão do Islã através grupos terroristas como o Estado Islâmico, o Taliban, o Hamas e a Al Qaeda e são esses grupos que estão fazendo “faxinas étnicas”, religiosas e ideológicas em vastas regiões da África e do Oriente Médio e produzindo esse movimento migratório de dimensões nunca vistas em nossa era.

No curto prazo está em jogo a vida dos refugiados, a médio prazo está em jogo a própria sobrevivência dos estados laicos ocidentais, cujos valores cristãos permitem e até exigem que se acolham em seu seio milhares de membros de uma religião cuja diretriz dominante é exterminar esses mesmos valores que permitem a sua acolhida.

As crenças e pessoas que julgam deter o monopólio da verdade têm certezas acima da razão e tudo podem fazer para impor suas convicções aos que pensam diferente. Eles agem em nome de deus, assassinatos em massa passam a ser instrumentos legítimos.

A resposta a esses fundamentalistas não pode ser dada pelos fundamentalistas de todas as vertentes, políticas e religiosas, que existem por aqui e que já se manifestam nas redes sociais. Felizmente, diferente dos países totalitários e do mundo mundo islâmico, esses fundamentalistas não têm o controle do estado. Pelo menos por enquanto.

As crenças rígidas não permitem a flexibilidade de pensamento capaz de gerar novas respostas para enfrentar as crises. Os fundamentalistas têm as mesmas respostas prontas para problemas que mudam constantemente.

Prefiro ter dúvidas, em nome da dúvida nunca se matou ninguém, nunca se começou uma guerra sequer e ainda se construiu todo o conhecimento humano, incluindo todas as ciências e até essas religiões que agora alegam não ter mais dúvida nenhuma e querem exterminar todos que não comunguem das suas certezas.

A dúvida precede a certeza, é a semente da tolerância e do progresso.

Só descobrimos que o sol não gira em torno da terra, só curamos a maioria das doenças, só produzimos alimento em larga escala, porque alguém curioso duvidou, quase sempre com risco da própria vida, das verdades estabelecidas pela crença dominante da sua época.

O modelo das democracias ocidentais é imperfeito, mas é a única linha evolutiva contínua de centenas de anos de civilização ocidental e é o único modelo que tolera divergências de crenças e opiniões em seu próprio meio.

Quem cultiva a dúvida não é desprovido de convicções, apenas admite discuti-las e pode ser convencido por argumentos superiores ao seu.

Estou convencido que o Ocidente tem que ajudar os refugiados, mas essa não é a única urgência que essa crise expõe.

Também urge encontrar uma forma de não ser engolido pela doutrina totalitária islâmica que cresce exponencialmente nos países ocidentais cristãos, enquanto simultaneamente exterminam com requintes de crueldade todos os ” infiéis” nas regiões sob o seu controle.

Os refugiados merecem toda a solidariedade, mas o combate à crença que produz esses refugiados é tão urgente quanto.

Dúvida não deve ser confundida com fraqueza e tolerância não pode ser confundida com submissão.

P.S. Após eu ter concluído o texto a Alemanha acolheu dez mil refugiados. A solidariedade veio da pressão, mas bem ou mal os líderes dos países ocidentais fazem o que é possível para minimizar os efeitos da migração em massa. É bom lembrar que essas multidões são oriundas de regiões controladas pelo Estado Islâmico ou de outro grupos radicais islâmicos. E as nações muçulmanas ricas, o que têm a oferecer? E os líderes muçulmanos?

Os que vivem no Ocidente criticam as políticas dos países que os abrigam, especialmente Alemanha e Inglaterra e nada têm a dizer do papel dos países muçulmanos na crise. Os líderes muçulmanos dos países muçulmanos simplesmente fingem que o assunto não existe.

Eles estão em guerra.

A revolta vai acontecendo à medida que as notícias continuam chegando e eu escrevi com essa emoção. Esse assunto está acontecendo agora e pode estar mudando o curso da história.

Sergio Vellozo Lucas | Blog do Luiz Paulo

Sérgio Vellozo Lucas

Sou médico formado pela UFF em 1986 e sou psiquiatra concursado do antigo Hospital Adauto Botelho e atual HEAC desde 1993.

Além disso sou atleta meia boca, filósofo de botequim, aspirante a escritor de bulas de remédios, pai do Joel e marido da Angelita.

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