A mocinha do caderno

por Luiz Paulo Vellozo Lucas

Ele não chamava muita atenção. Era mais alto que a média, aquele sujeito que está acima do peso e a gente chama de fortinho. Ainda usava cabelo com gel rente à máquina, quando as revistas e comerciais já o mandavam crescer. E não falava quase nunca. Entrou um pouco atrasado e sentou naquele dia do lado dela. Sacou seu fichário, o apoiou na mesa mas antes de abri-lo ouviu:

“Eu esperava mais de você”.

Essa frase geralmente ouvida em momentos dramáticos, foi dita da maneira mais suave e blasé possível. Provavelmente foi a primeira coisa que aquela menina disse a ele, depois de todas as terças e quintas sentando ao seu lado, naquele semestre quente de 2002, para aprender antropologia.

O que ele fez que decepcionou tanto a mocinha do caderno, foi colocar um adesivo do Serra Presidente ocupando toda a capa dura do seu fichário. Em seguida, com a empáfia dos corretos, ela sacou da mochila um caderno do MST. Havia no campus uma banca permanente de venda de produtos para ajudar o movimento. Por um minuto, MST e Serra Presidente ficaram lado a lado.

É verdade que o caderno do MST era mais bem acabado, um produto oficial. Já o fichário era de uma marca qualquer, tinha tomado sua posição política de maneira um tanto quanto amadora; o adesivo fora colocado as pressas, cheio de bolhas de ar.

A menina deu um meio sorriso satisfeita, e a aula começou.

Quem mais perdeu com esse tempo de governo do PT foi a mocinha do caderno. Julho de 2013 não foi sobre temas vagos como saúde, educação, transporte, corrupção. Foi um rompante de desesperados que não tem mais representação. Que antigamente podiam comprar um caderno e sentir que fizeram algo pra mudar alguma coisa. Ou podiam falar mal do governo neoliberal, que tudo aquilo era um horror e votar no PT, que não importa o que houvesse era sempre do contra. Era um conforto saber que se o governo fez alguma coisa, qualquer coisa, e você estava puto porque aquela menina do seu lado mais uma vez tinha te ignorado, ou porque a vida realmente é injusta, de dois em dois anos você botava um broche, um adesivo ou até um bandeira na janela e votava no PT. O PT não decepcionou eu e o cara do fichário, nós sabíamos que ia ser um desastre.

A mocinha do caderno que ficou órfã.

E um petista orfão tem duas opções: ou vai pro PSOL ou vira Rui Falcão.

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Luiz Paulo Vellozo Lucas

Capixaba, 58 anos, pai do André, Laura e Rafael – e avô do Dante.
Engenheiro de produção formado pela UFRJ, pós-graduado em desenvolvimento econômico (BNDES) e economia industrial (UFRJ).
Funcionário do BNDES desde 1980, professor da PUC-RJ e da FDV e atualmente sou presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

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